Atalhos de Campo


23.10.15

Um weepy, sem jeito, (molto amoroso)

Acabo de chegar a casa com um ramo de cheiros. No ar fica um trilho perfumado. Abro a gaiola e dou-o aos pássaros. Sinto-me miserável por não os conseguir libertar, e vou aprofundando a ideia de que será bom fazê-lo na próxima Primavera. Enquanto caminho ninguém me observa, vivo muito tempo sozinha. Os meus amigos dizem-me que fiz um voto de pobreza, que sou uma eremita, e eu acrescento sempre, o único voto que não fiz foi o de castidade, e eles também sabem disso. Mas longe vão os tempos do servilismo do desejo, da urgência do corpo, do exultante prazer. Abri a minha vida, ou o que resta dos meus olhos, dos meus ouvidos, da minha pele, dos meus ossos,(que se desapegam da carne todos os dias ao ritmo das estações), ao voo dos pássaros, ao trilho dos animais, ao espanto de uma borboleta, ao esforço hercúleo da formiga. Não sou feliz, nem infeliz. As leis que agora me governam a vida são tão perversas como a natureza é. Encontrar um animal morto pode acontecer quase ao mesmo tempo do que descobrir uma lebre a correr pelos campos. Ter um blogue é continuar um trilho de ser humano, de se ser humano, é finalmente um encontro de almas e não uma colisão de corpos. A decepção deu-se porque quando começava finalmente a aperceber-me da grandiosidade da alma humana também me senti como uma alma penada. Uma amiga de longa data espantou-se por eu não ter pronúncia do Alentejo, e ainda mais quando eu lhe disse como é que eu posso ter pronúncia do Alentejo, se não falo com ninguém. Demorou tempo, mas encontrei o fluir dos dedos do pensamento, um resort para almas, um spa dos sentidos, um silêncio povoado, revisitado, anónimo: a expressão "parar com essas cores verdoengas" num comentário do JM, deixou-me ver ontem o quanto o nosso estado de espírito pode influenciar a meteorologia dos outros, e logo de seguida aconteceu uma coisa extraordinária, saí a porta e respirei o mesmo ar dos bandos de pintassilgos que colonizavam o jardim. Ele merecia um. 
Obrigada a todos, (mas ainda faltam alguns...).    

10 comentários:

  1. «Ter um blogue é continuar um trilho de ser humano, de se ser humano, é finalmente um encontro de almas e não uma colisão de corpos.»

    sim.

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  2. "(Mas) O sol fulmina a memória. Limpa-a da crueldade do passado.
    (E) A vida, aqui, reduz-se a efémeros passos, surdas gargalhadas,
    ideias que se evaporam lentamente.
    Enfim, o mundo não é assim tão grande...
    E a vida, afinal, é como as orquídeas - reproduz-se com dificuldade."

    (…)

    "Ainda vejo aquelas árvores cobertas de ossos luminosos,
    e a duna incendiada, o deserto onde posso continuar a reconstruir o universo.
    Escavo no coração um poço de sal, para dar de beber ao viajante que fui.
    Deixo o vento arrastar consigo a infindável caravana de ilusões.
    E digo: que tudo se afogue na gordura das manhãs, que tudo silencie...
    e uma língua de fogo atinja os livros que não escreverei."

    Al Berto
    Filhos de Rimbaud

    E, agora, toca a despachar que temos noitada no saloon. Eu estou um pouco atrasada, aqui de volta de umas dúvidas existenciais. Não sei o que vestir logo à noite. Já experimentei o conteúdo completo do roupeiro, só me resta a colcha da cama. A Milu, que vem connosco, já está a depilar as pernas...

    Um beijinho, querida Teresa (_._)


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    1. (ahahahahahahah! a Milu é tradicional, nada de depilações, Miss Smile :b)

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    2. Oferecemos um depilatório Taky, na compra de 15 kg da nossa ração premium.
      Oferta limitada.

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    3. "Foi em 1978, no Verão, que te conheci. Nesse ano, num dos poemas de «doze moradas de silêncio» citei Rilke: «Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas não encontrar ninguém - é a isto que é preciso chegar.» Depois a paisagem onde nos encontrámos desapareceu, a pouco e pouco, num desfocado adeus.(...) O corpo que hoje regressa a Milfontes já não é o corpo esplêndido que conheceste. Se há coisas na vida que contam com o tempo, são a amizade e a velhice. ( O tempo fez-me perder a primeira, enquanto acentuava a segunda.) (...) Mas ninguém possui verdadeiramente alguma coisa. As coisas do mundo pertencem a todos e, sobretudo, a quem aprendeu a nomeá-las.(...)

      Al Berto
      Carta de Milfontes

      Miss Smile, estava lindíssima por baixo da sua colcha de patchwork; aquele energúmeno que me fechou a decorar sinais de pontuação nem reparou, senão era bonito, imagino o discurso, género vem para aqui com a colcha da cama Miss Saloon 2015, só lhe falta a coroa e a faixa a dizer Manel Hilário...ah,ah,ah!

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  3. Não sei se estou incluída nesse "Obrigada a todos", mas se estou vou retorquir que quem agradece sou eu, querida Teresa. Este é um texto maravilhoso, mais um. Um blogue pode realmente proporcionar um encontro de almas e a minha está contente por ter encontrado a tua (isto ficou lindo e é verdade) e por ter aqui duas bezerras lindas também está a minha alma contente (para não ficar muito poético). :-)
    Um abraço apertado.

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    1. Susana, a coisa mais bonita que me ofereceste foi «Um canteiro de flores mortas», tão belo como a Ave Maria de Schubert.
      Um abraço apertado.

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  4. [24 kg de Hills Weight/ Joint Care por mês. a que preço me faz essa premium?]

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    1. Terá direito a dois cremes depilatórios Taki, e a um açaimo XXL biqueira larga, para usar quando a levar ao saloon; também pode trocar os dois cremes depilatórios que só têm validade até 1987 :) por um banho revilatizante+anti-pulgas no nosso saloon de beleza. Temos cartão de cliente :) e pessoal especializado em raças miniatura, para defenderem os Pinschers quando ela entrar...

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