Atalhos de Campo


1.10.15

software, hardware, & underwear

A mim pareceu-me fácil, a partir de certa altura: era só seguir a nuvem. Um céu azul de bom prenúncio aparecia ao fundo, e a estrada serpenteava como um rio reconvertido a regressar em contra-corrente ao coração da montanha, atravessando povoações e matas, dividindo propriedades, galgando pontes, rasgando gratuitamente maciços graníticos, e expondo a dureza vencida dos quartzos e dos feldspatos, e o olhar cristalizado das micas. A nuvem imensa que se acastelara por trás das serranias como uma segunda cordilheira, (enorme e inofensiva perante o olhar impávido do céu), e se mantivera coesa ao longo do trajecto inteiro, (enquanto a fotografava a todas as velocidades), abandonara as costas da montanha, e viera pousar no horizonte da última cidade antes da noite, parecendo querer dizer, é aqui. Enquanto eu dormia e sonhava com os noivos num céu de Chagall, o gato de Modigliani acordara amnésico, deitado sobre a placa gráfica, prisioneiro do computador desligado a várias centenas de quilómetros de distância. As pupilas fixadas em modo contraído impediam-no de ver à noite, e o rato zombava da sua captura nas malhas do tempo, algures entre Kronos e Kairos, sem se lembrar em qual dos dois tinha ficado. E se o corpo se inquietava, encurralado entre a motherboard e os processadores, o disco mantinha-se hermético, sequestrando-lhe a alma. Elegantes atravessávamos o corredor central e chegávamos ao altar rodeados de gypsophilas, de velas acesas, e, meu Deus, do Air maravilhosamente tocado, esse ar sublime que ao escapar-me te entregava pela segunda vez ali, trinta e dois anos depois, com a mesma convicção. Old, new, borrowed, and blue...hold. Ao chegar a casa o céu estava limpo, mas o outro ecrã apresentava-se desconsolado e em underwear, envergando um monótono rendilhado de letras brancas sobre um céu negro. Era evidente que o velho Windows naquela figura (em pijama e pantufas) se recusava a funcionar, e por nada deste mundo lhe consegui vestir outra coisa, supersticioso que estava por causa de um gato preto que por ali permanecera vários dias em stand by. Sentia-me cansada, trouxera uma visita de oitenta e três anos, e mais um cão, que ficava à minha guarda durante quinze dias. Ao longo desse tempo li um livro, dediquei-me ao jardim, limpei o alpendre, pintei paredes, fiz arrumações, e mantive algumas boas conversas com o meu convidado, à medida que a sua leitura da biografia de Hitler progredia. Numa manhã, por causa da Hungria, saí para fotografar os arames farpados. Demorei-me. E foi exactamente nesse dia que senti que já era tempo de mandar reparar o computador. 

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