Atalhos de Campo


15.10.15

Perdida

Páscoa de 1987. Deve haver uma fotografia nossa em Jerez de la Frontera a tomar uma cerveja logo no início da viagem. Deveríamos chegar a Barcelona em dois ou três dias, seguindo ao longo da costa mediterrânica. Fizemos um pequeno desvio para visitar Granada e dar um pulo a Serra Nevada. Subíamos a serra num fim de tarde magnífico de Primavera, quando vejo um cão enorme a fugir por entre os pinheiros. Mal o carro obedecera ao pedido de trava, está ali um cão, e já eu corria pelo pinhal fora a chamar, a implorar, com a minha voz mais doce, que viesse, que não fugisse, sem sequer me lembrar de falar portunhol. A princípio afastou-se de mim, eu fui dando espaço mas sempre insistindo, fui-me conseguindo aproximar devagar até lhe chegar com a mão, para que a cheirasse, e depois fiz uma festa naquela linda cabeçorra, tranquilizando-o de que não lhe faria mal. Não havia casas em volta, o cão, que afinal verifiquei ser uma cadela de raça Grand Danois, não tinha coleira, e o estado de desnutrição aproximava-se da caquexia. Tirei o cinto das calças sem demora, enfiei-lho pela cabeça abaixo e conduzi-a devagar para o carro. Ela foi avançando comigo sem se opor, e nunca mais me esqueci do seu suspiro profundo quando finalmente subiu para o banco de trás e se deixou cair exausta, pousando a cabeça sobre as patas com uma delicadeza notável. Voltámo-nos um para o outro, e agora, como fazemos o resto da viagem, e sobretudo a estadia, quinze dias num hotel no centro de Barcelona. A cadela fica no carro, e eu posso ir passeá-la e dar-lhe de comer, desconfio que tem Leishmaniose pelo aspecto, já reparaste na cauda, de tão magra as vértebras coccígeas quase lhe perfuram a pele, abandonaram-na com certeza. Quando chegámos a Serra Nevada era já de noite, e no restaurante onde jantámos pedimos os nossos restos e algo mais se possível porque tínhamos encontrado um cão. O dono do restaurante que nos servia prestou-se a arranjar imediatamente uma boa refeição, dizendo-nos com simpatia que gostava muito de animais, e que também tinha um cão, o nosso mascote, disse, apontando para o balcão. E chamou o Gengis Khan para nos conhecer. Perante o nosso espanto apareceu um enorme e bem tratado Grand Danois, preto como ela. A Perdida ficou em Serra Nevada, e no dia seguinte fui despedir-me dela à fourgonnette do novo dono. Pareceu-me que quando lhe abracei o pescoço, lhe vi, também, uma lágrima. A nossa fotografia foi a única que não apareceu na revelação dos rolos fotográficos da viagem, talvez porque fosse uma história que valesse a pena ser contada. 

4 comentários:

  1. :)))))))))))))))))))))))))))))))

    (obrigada)

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    1. A Perdida era um bom cão.
      Agradece, com uma lambidela XXL. :)

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  2. A Teresa é a prova de que existem anjos :)

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    1. Todos temos um pouco de anjo, de anjinho, e de anjo caído...nem sempre do céu.
      Mas sim, o meu anjo bom ganhou as últimas eleições :)

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