Atalhos de Campo


3.10.15

password























Nuns versos justamente célebres, Hölderlin assegura que onde nasce o maior perigo cresce também o que pode salvar-nos. Mas devemos recordar-nos de que por vezes a fórmula deverá ser lida ao contrário: as raízes das nossas melhores possibilidades e as daquilo que compromete a nossa própria humanidade fundem-se na mesma terra e por vezes parecem entrelaçar-se. O mesmo acontece com a complexa questão da heterofobia, o sentimento de temor e ódio pelos outros, pelos diferentes, pelos estranhos, pelos forasteiros, pelos que irrompem do exterior no nosso círculo de identificação.
Fernando Savater

6 comentários:

  1. Penso que tudo se resume a uma questão de identidade. E a identidade, para ser identidade, tem de ser delimitada. É-se por contraste ao que não se é ou ao que não se quer ser. Os círculos, tribos e grupos, protegidos por palavras-passe, condutas, gostos, opiniões, tendências, etc. são sempre uma representação do que somos, fomos, deixamos de ser, queremos ser, ainda não somos, etc. A identidade é sempre uma representação, uma construção - como o quadro de Magritte que representa um cachimbo ao mesmo tempo que o nega com a frase “Ceci n’est pas une pipe”. Na verdade, o quadro não é um cachimbo, mas a representação de um cachimbo. O mesmo se passa com a identidade que construímos. E ela é tão volátil que temos de protegê-la a todo o custo (estou a usar de alguma ironia, claro).

    Um beijinho, Teresa

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Colocando um exemplo prático dos dias de hoje: a quinta está cercada, se alguém pular a cerca e entrar sem autorização, é um invasor ou não?
      E se for uma fronteira, é invasão, fuga, ou migração?
      E se o portão estiver aberto, poderá ser na mesma invasão, ou não?
      Se alguém colocar à frente uma criança para se proteger, é manipulação ou não?
      Se um homem deixar a mulher para trás, sujeita a ser baleada ao sair da porta, é cobardia e abandono ou não?
      Se alguém em fuga de um país em guerra aceitar posar para uma fotografia transportando um velho, é oportunismo ou não?
      E se fugir da guerra, procurará primeiro a paz, ou não?
      E se eu publicitar que abri as portas, o que é?
      E se eu for de facto Teresa, posso ser Teresa ou não?

      Um beijinho, Miss Smile

      Eliminar
  2. Compreendo perfeitamente as suas questões, mas não sei se consigo responder a todas elas, porque todas são contingentes, advenientes das circunstâncias ou do mundo em que se inserem. Lógicas matemáticas e filosóficas à parte, a Teresa será sempre a Teresa, mesmo que mude a forma como se vê.

    Um beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Concordo que há contingências, particularidades, e não tenho nenhum horror à diferença, muito pelo contrário, mas sinto alguma intranquilidade em relação a esta ocorrência que estamos a viver na Europa; preferiria fazer alguma coisa, ter mais certezas, e dormir mais descansada.
      Boa noite, Miss Smile, e um beijinho.

      Eliminar
  3. Provavelmente, conseguiremos fazer mais se tivermos menos certezas.

    Um beijinho e boa noite

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Miss Smile, por hoje decidi tomar um chá de camomila...

      Boa noite :)

      Eliminar