Atalhos de Campo


8.10.15

o anti-nobel

(...)
Lembrem-se de que os Gnósticos diziam que a única maneira de nos livrarmos de um pecado é cometê-lo, porque depois arrependemo-nos. No que respeita à literatura, tinham, no essencial razão. Se atingi a felicidade de escrever quatro ou cinco páginas toleráveis depois de escrever quinze intoleráveis volumes, alcancei essa façanha não só ao longo de muitos anos como também através do método de tentativa e erro. Acho que não cometi todos os erros possíveis- porque os erros são inúmeros-, mas muitos deles.
(...)


Falei de vários poetas hoje e lamento dizer que na última palestra falarei de um poeta menor- um poeta cujas obras nunca li, mas um poeta cujas obras tenho que escrever. Falarei de mim. E espero que me perdoem este anticlímax assaz afectuoso.

Jorge Luis Borges/ Este Ofício de Poeta

4 comentários:

  1. Vim para a América há seis meses. No meu país, sou praticamente (para repetir o título de um livro famoso de Wells) o Homem Invisível. Aqui sou um tanto visível. Aqui, as pessoas leram-me -- leram-me tanto que me interrogam sobre histórias que já esqueci de todo. Perguntam-me porque ficou Fulano calado antes de responder, e eu sem saber quem era Fulano, o que respondeu ele. Hesito em dizer-lhes a verdade. Digo que Fulano ficou calado porque em geral está-se calado antes de dar uma resposta. E no entanto essas coisas fizeram-me feliz. Penso que estão totalmente errados se admiram a minha escrita. Mas penso que é um erro muito generoso.

    Jorge Luis Borges, Este Ofício de Poeta

    (Digamos que não teve o Nobel, porque o Nobel não merecia tê-lo -- nunca o contrário).

    Bom dia, Teresa.

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    1. " O mesmo é dizer que muitas coisas me aconteceram, a mim como a todos os homens. Encontrei alegria em muitas coisas - nadar, escrever, contemplar um nascer ou pôr do sol, apaixonar-me, etc. mas de certo modo o facto central da minha vida tem sido a existência de palavras e a possibilidade de as tecer em poesia. A princípio, por certo era apenas leitor. Mas penso que a felicidade de um leitor vai além da de um escritor, pois o leitor não precisa de sentir a perturbação, a ansiedade: anda simplesmente à procura de felicidade. E a felicidade, quando se é leitor, é frequente."

      Um belíssimo dia para recordar Borges, que o Nobel falhou...
      Bom dia, Xilre, (já tinha saudades suas).

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  2. Por outro lado, e de acordo com Borges, "uma pessoa torna-se grande por aquilo que lê e não pelo que escreve".

    Um beijinho, Teresa

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    1. "Penso-me essencialmente como leitor. Como sabem, aventurei-me na escrita; mas penso que as coisas que li foram muito mais importantes do que as que escrevi. Porque lemos aquilo de que gostamos - mas não escrevemos o que gostaríamos de escrever, apenas o que podemos escrever."
      Jorge Luis Borges/ Este Ofício de Poeta

      Uma lição de humildade, de um grande e maravilhoso escritor.
      Um beijinho, Miss Smile

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