Atalhos de Campo


24.10.15

notícias da quinta (11)

Não há mãos a medir nesta altura do ano. Das imediações chegam durante o dia as vozes dos tractores, a toada monótona dos chocalhos das ovelhas, a urgência do regresso a casa na estrada secundária ao cair da noite. Mas também durante a noite se trabalha. Máquinas equipadas com holofotes tremendos continuam a sua zoada longínqua e extenuante a gradar a terra amaciada pela chuva, parecendo ao longe os carros a pilhas da infância, que ao tocarem nas cercas voltam para nós os faróis acesos e nos encandeiam nos corredores compridos da memória. De manhã recomeçam cedo, enquanto a marmelada exausta, que ontem já conseguia equilibrar sozinha a colher de pau, repousa hoje nas taças de loiça o seu belo óxido de açúcar envernizado. É a vez das sementes, do escarificador, a aveia a soltar-se e a pesar sob a morrinha, lançados já os dados na grande roleta da sorte desta cartada, deste vício ancestral, com o palpite de que é desta vez que a enorme mesa de jogo da terra se vai cobrir completamente com o suave pano verde, ganhando aos bandos de pássaros e ao exército subterrâneo das formigas. E o tractor ao longe despede-se, com a única companhia dos lenços brancos das garças.

 

2 comentários:

  1. Que maravilha! Gostei tanto de ler - o início de um novo ciclo.
    Despeço-me na companhia do lenço branco das garças :)

    Boa noite, Teresa

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    Respostas
    1. " Penso que têm nostalgia de mar estas garças pantaneiras. São viúvas de Xaraés? Alguma coisa em azul e profundidade lhes foi arrancada. Há uma sombra de dor em seus voos. Assim, quando vão de regresso aos seus ninhos, enchem de entardecer os campos e os homens."
      Manoel de Barros/ A nossa Garça

      Boa noite, Miss Smile

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