Atalhos de Campo


7.10.15

memória. curta # 9

Era uma senhora alta, alegre, de riso fácil com um timbre muito particular. Tinha duas cadelas rafeiras, grandes, pacíficas e de bom trato, como a dona. A senhora mantinha com elas uma relação maternal, situação muito comum quando as pessoas já têm os filhos fora de casa, e passam muito mais tempo sozinhas. Embora ocupada, era cuidadosa com os cães, apressando-se a ir à consulta se notava algum sinal estranho. Mas naquele dia não fora o caso, e por isso ficou mais um pouco, descontraída, a conversar. Oh s'outora, sabe o que é que esta menina faz? Ela dorme comigo no quarto, e se eu me levanto para ir à casa de banho, nunca vai comigo; mas se acordo com fome e vou à cozinha ela segue-me sempre. Como é que ela sabe, pensava eu. Olhe que andei que tempos intrigada com isto, até que uma noite, finalmente, fez-se-me luz. Quando vou à casa de banho, que é logo ao lado, nunca me calço, mas se vou à cozinha calço os chinelos de quarto, e é claro, partilho a ceia com ela! E começou a rir-se muito, a dar pequenas gargalhadas nervosas em cascata que terminavam numa espécie de rosnadela, enquanto a cadela fora buscar a trela a uma cadeira, e lha colocara no colo.   

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