Atalhos de Campo


20.10.15

memória. curta # 11

Acendo o foco da memória e dirijo-o para um ponto muito particular do passado. É esse ponto que eu quero ver bem, depois de terem decorrido tantos anos. Tenho a certeza de que era um Sábado invernoso. Preparava-me para sair. Poderiam ser cinco horas da tarde e o fim-de-semana começava a escassear a cada minuto. Ao Sábado era frequente não almoçar porque o horário da manhã acabava por se estender para a tarde, como todas as manhãs ligam com todas as tardes, alheias às conveniências de cada um. Talvez tivesse já tirado a bata, pousado o estetoscópio sobre a secretária, talvez estivesse mesmo a subir as escadas rapidamente em direcção à porta de saída à procura de luz, quando apareceu um último paciente, e tudo se reverteu. Rebobino o tempo, e revejo-me a vestir de novo a bata, um nadinha contrariada, e a recomeçar, com a paciência do princípio. Sentada à espera, vejo entrar um cão cruzado de Pastor Alemão, com ar abatido. Começo a fazer a ficha clínica, e interrogo os donos, dois homens aparentando ser pai e filho, sobre a razão da consulta. O cão tinha-se deitado entretanto e eu não o conseguia ver da secretária. Sabe doutora, começou por dizer o pai, nós temos um quintalito, e este animal está preso à casota durante todo o ano. Vai lá alguém dar-lhe uns restos uma vez por dia e mudar-lhe a água, mas entretanto disseram-nos que ele deixou de comer e fomos lá vê-lo hoje, e...Parecia algo acanhado, e enquanto ia falando enrolava e desenrolava as mãos uma na outra, sem saber bem o que lhes fazer, como se as mãos fossem palavras difíceis de pronunciar. Entretanto eu já tinha contornado a secretária e já tinha dito, vamos lá observá-lo, vamos pô-lo sobre a marquesa. Dirijo o foco do olhar bem para o ponto que me indicavam como pensamos que é disto, mas ele já tem isto há algum tempo. Enquanto o dono ia afastando o pêlo que cobria a corrente que circundava o pescoço, para que eu pudesse ver, vou ficando chocada ao verificar que esta lhe desaparecia completamente sob a pele, para surgir mais de vinte centímetros à frente. O cão foi anestesiado e operado. A cirurgia foi mais complicada pela firme aderência dos tecidos que penetravam e envolviam as argolas de metal. Quando finalmente dei o último ponto e saí para a rua, recordo-me de tentar inspirar, de uma só vez, toda suavidade do ar gelado da noite. 

11 comentários:

  1. Tão duro, tão duro... Não há qualquer explicação para isto. Por mais que me esforce, não consigo racionalizar como é que se pode infligir tamanha dor e abandono a um animal e ter tanto desrespeito perante a vida.
    Agora, compreendo as suas fotos das árvores.
    E o cão, recuperou? Espero que sim e que tenha encontrado alguém que o merecesse.

    Um beijinho, Teresa

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    1. Miss Smile, o cão recuperou e apareceu duas semanas depois para tirar os pontos; no entanto não sei se conseguiu sobreviver aos donos que tinha. Todos os exemplos vivos se interligam e fazem pensar. Olhando para as árvores, aproveitadas para fixar arames e integrarem cercas (vivas), lembrei-me daquele cão - felizmente o único caso que tive assim - tratando um cão naquele estado pensei também em determinadas pessoas, que ainda hoje são tratadas como certos animais. E fico revoltada com qualquer uma delas.

      Um beijinho; e obrigada.

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  2. na primeira leitura, vem a raiva, na segunda, a tristeza.

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    1. na verdade é sobretudo muito triste, flor
      uma tristeza que nunca se dissipou, apesar dos anos

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  3. e (no meu caso) uma impotência atroz. sou uma descrente.

    um abraço.

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    1. " Senhor, não mereço isto.
      Não creio em vós para vos amar.
      Trouxeste-me a São Francisco
      E me fazeis vosso escravo.

      Não entrarei, senhor, no templo,
      seu frontispício me basta.
      Vossas flores e querubins
      são matéria de muito amar.

      Dai-me, senhor, a só beleza
      destes ornatos. E não a alma.
      Pressente-se dor de homem,
      paralela à das cinco chagas.

      Mas entro e, senhor, me perco
      na rósea nave triunfal.
      Por que tanto baixar o céu?
      Por que esta nova cilada?

      Senhor, os púlpitos mudos
      entretanto me sorriem.
      Mais que vossa igreja, esta
      sabe a voz de me embalar.

      Perdão, senhor, por não amar-vos."

      Carlos Drummond de Andrade/ São Francisco de Assis

      Um abraço, flor

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  4. Querida Teresa Borges do Canto,
    Acabo de ler este texto. Muito bem escrito, como é apanágio seu. E, no entanto, preferia não o ter lido.
    Noite feliz,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,
      E eu preferia não o ter escrito...mas precisava de o escrever.
      O pior é que se escreve tantas vezes para quem nem sabe ler...
      Uma noite feliz, e agora digo eu, obrigada pela partilha.

      Teresinha...

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  5. Querida Teresa, apetece-me fazer minhas as palavras do Outro Ente e faço-as. Mas acrescento isto: uma das minhas primeiras paixões, se não mesmo a primeira, chamava-se Duque e era um Pastor Alemão, o cão mais lindo do mundo, eu tinha 4 anos e brincava com ele o tempo todo que podia, a minha irmã de 2 anos tinha medo dele e então a nossa avó fechava-o na casa onde guardava as batatas e outras coisas que cheiravam muito mal. Eu saltava a janela e ia para o pé do cão, para ele não aturar o cheiro ali sozinho. E lembrar-me dele é sempre muito bom.
    Que linda profissão tens, Teresa.

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    1. Susana, sabes que eu tive uma paixão idêntica por uma cadela Pastor Alemão, o meu primeiro cão. Foi um presente porque eu gostava muito de cães, mas depois foi-se tornando agressiva e a única pessoa a quem não mordia era a mim. O meu pai acabou por dá-la, e eu tive um grande desgosto. Isto passou-se em África. Quando a minha avó nos visitou eu pedia-lhe para me levar a passear todos os dias, e simplesmente arrastava-a comigo para me aproximar da casa onde a cadela vivia, e ao vê-la lembro-me que ficava ali parada a olhá-la de longe, e a chorar. Que bonito isso que contaste, o Duque devia ficar deliciado. Para além de bonitos e bons guardas, os pastores alemães são cães muito inteligentes e grandes companheiros.
      Obrigada por este maravilhoso momento, querida Susana.

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