Atalhos de Campo


13.10.15

memória. curta # 10

Chovia, ou pelo menos assim o recordo. Avançávamos pelo corredor em direcção à sala de abate, de onde chegavam estrondos metálicos, gritos abafados no ar saturado de humidade, interjeições grosseiras e pancadas secas, estampidos interrompendo a cadência rítmica dos motores pneumáticos dos elevadores de suspensão. O ruído das correntes ao ranger nas roldanas e dos breves jactos de água à pressão sobre os corpos e pavimentos, sobrepunha-se ao som contínuo dos cascos a avançar no chão quadriculado, transpirado e escorregadio, e culminava com os mugidos aflitivos do medo, da agonia, e os roncos surdos do estertor. Afastávamo-nos para deixar passar os animais no corredor central, que derrapavam e quase caíam, enquanto o professor tinha que berrar para nos explicar a sequência dos procedimentos: a entrada no recinto de abate após lavagem, o fecho da porta, a insensibilização com tiro de pistola pneumática para secccionar a medula (agora já substituído por outro método), a suspensão com correntes pelo membro posterior, a degola e a morte por sangria. Enquanto isto, um touro conseguia escapar-se do recinto de abate, e fugia desvairado pelo inferno sem saída daqueles corredores, perante o alarido dos ajudantes e dos magarefes a persegui-lo. Recuámos, cosidos com a parede e assustados, mas o abate prosseguiu com o animal seguinte, ao mesmo tempo que o professor aproveitava para comentar que nem sempre as coisas corriam bem. E à saída, concluía depois de nos levar a ver todas as secções que aqui só se desperdiça o último grito, enquanto passava por nós, a grande velocidade, um carrinho de mão com um potro castanho com uma pata partida, desaparecendo na luz magoada do dia.      

6 comentários:

  1. o seu texto trouxe-me as lágrimas aos olhos e um nó à garganta. não consigo sequer relê-lo.

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    1. Ainda bem flor; já o emendei trinta vezes :)

      Os ecos daquele dia horrível jamais desaparecerão. Um inferno. Uma violência.
      Lembro-me de que não consegui almoçar. Fiquei apalermada, catatónica.

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  2. Uma descrição crua do inferno dos corredores da morte... é quase insuportável lê-lo de tão bem escrito que está.

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    1. (...) - As pessoas queixam-se de que tratamos os animais como objectos, mas, na realidade tratamo-los como prisioneiros de guerra.

      (...) Mas a nossa compaixão é muito superficial. Por baixo dela existe uma atitude mais primitiva. O prisioneiro de guerra não pertence à nossa tribo. Podemos fazer dele o que quisermos. Podemos sacrificá-lo aos nossos deuses. Podemos degolá-lo, arrancar-lhe o coração, lançá-lo às chamas. Quando se trata de prisioneiros de guerra não há leis.
      - E é disso que quer curar a humanidade?"
      J.M.Coetzee

      Obrigada, Miss Smile.

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  3. “É sábado outra vez. Ele e Bev Shaw estão empenhados numa das sessões de Lösung. Um a um, traz para dentro os gatos, depois os cães: os velhos, os cegos, os coxos, os aleijados, os estropiados, mas também os jovens, os saudáveis – todos aqueles cuja hora chegou. Um a um, Bev toca-lhes, fala-lhes, conforta-os e abate-os, e depois afasta-se e fica a observá-lo enquanto ele fecha os restos mortais em sacos pretos de plástico. Não falam um com o outro. Já aprendeu com ela a concentrar toda a sua atenção no animal que estão a matar, dando-lhe aquilo a que já não sente dificuldade em chamar pelo nome: amor.”

    J. M. Coetzee, Desgraça

    E depois, há também o outro lado – a compaixão pelo que é irremediável.

    Um beijinho, Teresa

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    1. "Existem certamente caçadores, empregados de canis e matadouros, guardas de campos de concentração e criminosos de guerra que são compassivos. Mas parará a piedade nas fronteiras da espécie como parava nas fronteiras do género, da raça, do estatuto legal? Todos conhecemos pessoas que não gostam de seres humanos mas gostam de animais. Mas não há ninguém que, sendo cruel para animais, possa verdadeiramente gostar de pessoas."
      Paulo Varela Gomes/ Sabonetes de Pedra

      Um beijinho, e obrigada, Miss Smile

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