Atalhos de Campo


21.10.15

depois de setembro

No entanto, caídas as colunas de setembro com os
ventos que arrastam as insónias do levante e incendeiam
as planícies, erguem-se nas mãos de um deus morto
os mastros de mármore de um navio antigo. A que porto
se dirigia a sua viagem? Em que recifes projectou o seu 
naufrágio? Nos seus lábios, que os vermes do absoluto
devoram, leio as contas do tempo que ele imaginou
para o seu percurso clandestino, como se um deus
coubesse no porão. «Dizei-me», murmurou no instante
da agonia, «que ave seguirá o rasto do barco até
onde irei chegar?» Mas os homens confundiram
a sua voz com um distante anúncio de tempestade,
e abrigaram-se do céu, fugindo ao seu grito.
(...)
Nuno Júdice/Crença Outonal

2 comentários:

  1. (…)
    “Por fim, sem mais nada, resta-nos deus. Está morto
    dentro de nós. Mas ainda o podemos tirar da cabeça
    e estendê-lo na areia, como o corpo de uma baleia
    que tivesse dado à costa. “Não lhe toquem com os pés”,
    diz o guardião da costa “Se estiver podre, a sua podridão
    pega-se à nossa pele. “Mas já andei com ele dentro de mim”,
    respondi ao homem. “Já me pegou a doença do sagrado,
    a lepra de uma crença infinita, o desejo de um além
    que nunca verei.” O guardião da costa riu-se. “Sei
    muito bem onde vêm dar estas baleias. Os seus ossos
    estendem-se ao longo do litoral, ao seu lado sentam-se
    os inúteis, repetindo com as suas bocas mórbidas
    as frases que aprenderam no contacto com a sua carne
    putrefacta. Alguns, abriram-lhes os ventres e entraram
    neles, como se ainda os pudessem fecundar. E o seu
    esperma foi devorado pelos caranguejos da ria.”

    Deixei-o falar sozinho, como se faz a todos os que
    perderam a fé. E subi pelo dorso da baleia, até onde
    acreditei que poderia tocar o céu, enterrando-me
    na sua carne movediça até me confundir com
    o corpo de deus.”

    Nuno Júdice/Crença Outonal

    Um beijinho :)

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    Respostas
    1. (...)
      Mas ficámos sem ter aonde regressar, e só
      nos alimenta um pedaço do pão da desventura,
      ressequido do sol, com a consistência da pedra,
      doendo na boca como as palavras do poema."

      Nuno Júdice/ Crença Outonal

      Miss Smile, gosto tanto de conversar consigo que nem lhe digo boa noite...

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