Atalhos de Campo


28.10.15

a primeira partida

Hoje a minha irmã faz anos. A minha mãe costuma dizer que a primeira partida que a minha irmã lhe pregou foi essa, a de ter nascido pouco depois de ela se ter deitado, já tarde, a pôr tudo em ordem a seguir à festa dos meus quatro anos. A Ana Isabel nasceu de madrugada, um bebé maravilhoso, branco, careca, sem dentes, como convém às mães antigas dos bebés. No rosto Deus colocou-lhe dois pingos de mel, que com os anos se transformaram em gotas, e depois em lagos enormes de brilho felino na pele muito clara, ronronando por baixo das pálpebras pesadas de sol. Mesmo Deus teve dificuldade em manter no lugar aquela obra-prima, caíram uns salpicos que lhe ficavam bem, e por isso deixou-os ficar, e foi assim que Deus inventou as sardas. Na moldura esculpiu longos cabelos louros como folhas de acanto, e deu relevo a um nariz pequenino e rebelde onde pousavam como um passarinho as pontas dos dedos do meu pai. A seguir colocou-a sobre duas colunas compridas e esguias, que se moviam com a subtileza das garças. Deus esqueceu-se de lhe deixar instruções, o que ela seguiu à regra, ou tabuada, ou linhas, ou cartilha, ou mesmo catecismo, mas entregou-lhe um bloco de papel branco e um lápis, e indicou-lhe uma casinha escondida no campo, mesmo por trás do mar. Deu-lhe um cão e um gato, uma gaivota para salvar, uma árvore, uma pedra, um espinho. No fim moldou-lhe as mãos, e quando já estavam acabadas, deixou-lhe entre os dedos uma bola de barro, que ela sabia que era um pássaro. E foi assim que Deus a abençoou. 

Para a  Ana Isabel    

10 comentários:

  1. Um grande beijinho de parabéns, para si, a partilhar com a sua irmã "pequenina".

    [Teresa, além do T, existe em nós ainda o Escorpião!!! :) ]

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  2. Querida Teresa! A ti Deus deu-te o mundo e os animais, colocou-te uma caneta entre os dedos e reinventas a vida. Beijos, pela magnífica prenda de seres a minha mana!

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    1. Um belo ano para ti, querida Ana.
      Vou tentar continuar a ser sempre uma prenda boa, para além de ser uma boa prenda! :)

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  3. Querida Teresa, espero ter chegado a tempo da hora de apagar as velas!
    Muitos, muitos parabéns para ti e para a mana Ana.

    Deixo um poema de Álvaro Magalhães para as duas "bebés":

    Os anões são tão pequeninos
    que não fazem anos.
    Fazem aninhos.
    Os gigantes são tão grandalhões
    que não fazem anos.
    Fazem anões.

    (...)

    Os anos que fazemos
    também nos fazem a nós.
    Os anos que fizemos nos fizeram.
    Os anos que faremos nos farão.
    É de anos que somos feitos,
    de breve e misterioso tempo.
    Em nós estão os anos que já fomos.
    Esses anos, que fizemos, somos nós,
    do cimo da cabeça à ponta dos pés.
    Quanto tempo somos?
    Quantos anos és?

    De que é feito o tempo que nos faz?
    Quanto tempo há?
    Para onde vai o tempo que já foi?
    Onde está o tempo que virá?"

    P.S.: Eu sabia! Só podias ser Escorpião :)

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    1. Que maravilha, Miss Smile, neste caso ela é a gigante, eu a anã. Já lhe dei conselhos agora é ela a conselheira, somos muito amigas, já fomos "suaves raparigas", ela agora porta-se bem, e eu faço asneiras. :)

      Um beijinho, mas não é do escorpião. :)

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  4. Querida Teresa, muitos parabéns e muitas felicidades! Parabéns à Ana Isabel também. :-)

    (a irmã que vem a seguir a mim também se chama Ana Isabel... mas não lê o meu blogue)

    Abraço às duas (posso?) :-)

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    1. Oh!, o que perde...mas eu obriguei hoje a Ana Isabel [minha :)] a ler...disse-lhe, vai para casa e Lê o que eu escrevi para ti. Não estava à espera de tão pronta resposta, mas gostei muito. Afinal ela ainda é a caçula, e sabe que eu é que mando!
      Obrigada Susana, gostei tanto desse abraço (duplo).

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  5. Aqui, eu nasci depois, mas em nada difere o sentimento.
    Parabéns!

    Beijos. :)

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