Atalhos de Campo


6.10.15

A prenda

Hoje tive um presente. Sobre a mesa do alpendre (que é onde o Sr. Bonifácio deixa o correio que traz da vila), estava embrulhada num saco de plástico uma pele macia curtida há já muitos anos, e tratada por mãos experientes que a guardaram com esmero. Aqui há dias perguntei-lhe se conhecia algum sapateiro onde pudesse mandar fazer umas botas alentejanas. Ele disse-me que ia falar com o seu antigo sapateiro, mas que não tinha a certeza de ele ainda trabalhar, por estar muito velho. Veio com a notícia de que afinal já nem ele nem os outros dois homens que trabalhavam no ofício faziam botas. Nessa altura aproveitou para dizer que a Junta de Freguesia tinha promovido uns cursos para artesãos, mas que ninguém se tinha inscrito nessa arte, e acrescentou, até parece mentira que numa terra de sapateiros já não haja um único dedicado a isso. E continuou: Vou trazer-lhe uma pele de um lote que me deram há vinte anos, para ver o que é uma pele macia; de uma delas mandei fazer umas botas de cano alto, que eram uma luva. Eu adoro botas, disse-lhe, mas tenho algum receio de mandar fazer umas e depois de as não conseguir calçar, porque já ouvi dizer que as botas alentejanas são climatizadas, quentes no Verão e frias no Inverno... Rebateu-me delicadamente, as minhas eram macias e forradas, uma luva, insistiu. Se eu conseguir encontrar uma pele lá das minhas, trago-lha para ver o que é uma pele de qualidade, e se o sapateiro for bom, o trabalho fica a condizer. Não mais falámos disso, e há mesmo muitos dias em que nem sequer o vejo. É normal ter determinadas tarefas combinadas com antecedência, e quando chega começa imediatamente a trabalhar, durante a hora e meia em que aqui está. Faz-se assinalar por uma pena de pavão que encontra e deixa sobre a mesa, pelo dinheiro da venda dos ovos na vila, por algum papel importante sobre assuntos da quinta. Hoje foi com uma pele de cabra, e perante a minha interjeição de espanto ao avaliar-lhe a macieza, e a pergunta se a vendia, disse-me com simpatia ofereço-lha. Aceitando-a, senti que nada tinha feito para a merecer, e disse-lho, pensando naquilo com que seria capaz de retribuir, mas o Sr. Bonifácio tranquilizou-me, descobri que as peles andam para lá, e vão acabar a fazer coleiras para os chocalhos das ovelhas. Não é em vão que ele vem de uma terra de sapateiros mas que é também uma terra de músicos, e por vezes de antigos sapateiros que ainda continuam a ser músicos e a tocar nas duas bandas, que embora sendo rivais, apenas com as armas da música se digladiam na vila, nos dias de festa.  

6 comentários:

  1. “A pele transfigurada que as minhas mãos modelam
    como que adormece em sonhos tresloucados
    em que as pastagens verdes irrompem nesta cave
    e tudo se ilumina num sol que não está cá.

    E que aromas renascem nas pontas dos meus dedos
    de folhagens que a terra a custo libertou!,
    que ventos, que prados recendentes, que sedes saciadas!

    Já são os dedos mesmos que assim se transfiguram,
    se intrometem no mundo e o fazem falar.”

    Pedro Tamen, O Livro do Sapateiro

    Há também palavras que são música para os nossos ouvidos. Gostei muito do seu texto, Teresa. E claro que é merecedora desta generosidade! Receber simplesmente, sem querer retribuir imediatamente, é também um ato de humildade. Eu ainda estou a aprender esta lição...

    Por vezes, também gostaria de assinalar a minha passagem pelo seu atalho com uma pena, uma concha, uma flor, uma compota…

    Um beijinho e um dia feliz :)

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    1. Que bonito, Miss Smile.
      Por aqui já deixou tantos e tão belos sinais.
      E não serão afinal as palavras os melhores presentes? Hoje fiquei com uma pena, uma concha, uma flor, uma compota...um poema.
      Aproveito para lhe dizer que os seus afilhados estão lindos, e que tenho feito progressos na minha linguagem com eles. Afinal são dois machos...o mais velho é todo vaidoso e comunica mais comigo, esticando as asas, empertigando-se...fazendo gracinhas para chamar a atenção (enfim, o habitual).
      Um dia destes volto a escrever sobre esta experiência fantástica que me aconteceu.

      Um grande beijinho, e uma tarde feliz.:)

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  2. Querida Teresa Borges do Canto,
    Na Golegã ainda se encontra quem trabalhe bem. Espero que consiga retribuir ao cavalheiro que se faz anunciar com uma pena de pavão, calçando as botas.
    Noite feliz,
    Outro Ente.

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    1. Boa noite, Outro Ente,
      Vou tentar encontrar por aqui um bom artesão.
      E é como diz, o Sr. Bonifácio merece que lhe apareça com umas belas botas calçadas.
      Uma noite feliz.

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  3. Que boas novas dos meus afilhados! Então, afinal, são dois machos. Alterou-lhes os nomes? Imagino que seja uma delícia a comunicação com eles. Fico a aguardar registos fotográficos :)

    Um beijinho

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    1. São uma boa razão par eu acordar feliz...
      Quando começaram a ter um babete de penas pretas percebi finalmente o sexo; não lhes alterei os nomes, mas ganharam muitos petit-noms...ridículos, como convém.
      Estão já com as penas de adulto, sedosas e brilhantes, e voam maravilhosamente.
      Teriam feito as delícias da minha infância, mas como se vê nunca é tarde...

      Um beijinho, Miss Smile, e um dia luminoso.

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