Atalhos de Campo


12.10.15

a casa das histórias


Comecei por abrir as portadas para que a luz entrasse. Depois pintei as paredes, os tectos. A casa tinha uma história, senti que deveria contá-la. Dos baús saíram chapéus coloniais, lanças, bengalas, peles de springbok, chifres de impala, objectos vários, amostras de pesca de rio, feitas com penas mínimas e fios coloridos imitando insectos, montadas em quadros sobre a colecção dos selos correspondentes do Transkei, um cortinado foi pendurado suspenso num tronco de árvore, peças de cerâmica tradicionais foram colocadas num nicho; e surgiu um hall africano. Então era preciso contar a história. Comecei por desenhar e pintar dois papagaios africanos numa das paredes; um deles, pousado sobre a porta, tenta apanhar com o bico uma fita que voa; o outro voa, alheio às fitas. Um deles constrói, o outro não. Há um desenho central, um arabesco representando o equilíbrio, talvez o casamento, e depois há os componentes desse desenho dispersos, pintados sobre a parede. Uma grande folha, já seca, simboliza o passado, e voa para longe, dois girassóis caem, perante a impotência dos papagaios. Um dos girassóis é uma flor jovem, e parece divertido com a vertigem da queda; o outro não. Fui sempre pintando, durante quase três anos. O projecto é ambicioso, a casa presta-se a estes atrevimentos: um pintassilgo que voa em direcção a uma janela, borboletas azuis que rodeiam um quadro com hortênsias azuis, colunas trompe-l'oeil que sustentam o tecto abobadado, um anjo que espreita, pousado numa janela. Ouço ópera enquanto pinto e esqueço-me do tempo, ao longe iluminado por velas antigas, riscadas de zebra, e pintadas de leopardo.

4 comentários:

  1. “Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade.”
    Frida Kahlo

    Teresa, estou encantada :) E que bom que será entrar nessa casa habitada de histórias!
    Quem me dera pintar assim! Eu também gosto de pintar e, quando o faço, esqueço-me do tempo e de mim. Pinto quadros abstratos, inundados de nuvens coloridas, que disfarçam a inaptidão e imprecisão das minhas pinceladas. Não sei fazer melhor, mas gosto deles assim.

    Um beijinho cheio de admiração

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    1. Miss Smile, a casa conta-me histórias em cada recanto, é só escrevê-las...
      Nesta época do ano começo a "jardinar" dentro de casa, quando o jardim entra em pousio.
      Lembrou bem a Frida Kahlo, uma contadora de histórias impressionante, tal como a Paula Rego. Adoro a pintura das duas.
      Eu já não desenhava, nem pintava há trinta anos, porque acho que é incompatível com horários. Escrever também.
      Não sei o que é "fazer bem" ou "fazer melhor" em termos de realidade/abstracção. Admiro bastante quem consegue tirar o cinzento às nuvens. :)

      Um beijinho, Miss Smile, com um sorriso a aparecer sorrateiro por entre as suas nuvens coloridas. :)

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  2. Há casas que convidam a ficar. Esta fá-lo muito bem!

    Beijo, Teresa, e uma noite tranquila. :)

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    1. [conheço outra que também é assim]

      Uma noite feliz, Maria. :)

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