Atalhos de Campo


31.10.15

alguns minutos mais tarde



























gripe das aves

ontem ao fim do dia já quase não conseguia mexer-me: as dores musculares faziam-me andar contraída e a tiritar de frio, fiquei a saber que tinha muito mais articulações do que o necessário, por exemplo a cabeça podia ser uma peça única, só com a articulação do maxilar, e os dedos escusavam de revelar a sua polivalência ao contrário, encolhidos perante a dor, cobardes, inoperantes, resignados. deitei-me cheia de camisolas vestidas, depois de ter feito tudo com um esforço enorme. estás bem?, perguntou-me a minha mãe ao telefone, há dois dias que não sei nada de ti. mãe, estou metida na cama, acho que tenho febre e estou cheia de dores no corpo... isso é gripe, retorquiu, pois, eu sei, gripe das aves. gripe da aves?, estás com gripe das aves?, estou mãe, só pode ser gripe das aves, como é eu ia apanhar outra, se não contacto com ninguém? 

29.10.15

legado

deixo a minha primeira caixa de lápis Caran d'Ache a quem provar pertencer-lhe

nuances

os homens perdoam (quase) tudo às mulheres bonitas; 
as mulheres não perdoam (quase) nada às mulheres bonitas.

post scriptum


























(...)
mas se aqui voltares

talvez encontres estes papéis escritos
no recanto mais esquecido da noite...talvez
descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou

vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo

Al Berto/Postscriptum

28.10.15

a primeira partida

Hoje a minha irmã faz anos. A minha mãe costuma dizer que a primeira partida que a minha irmã lhe pregou foi essa, a de ter nascido pouco depois de ela se ter deitado, já tarde, a pôr tudo em ordem a seguir à festa dos meus quatro anos. A Ana Isabel nasceu de madrugada, um bebé maravilhoso, branco, careca, sem dentes, como convém às mães antigas dos bebés. No rosto Deus colocou-lhe dois pingos de mel, que com os anos se transformaram em gotas, e depois em lagos enormes de brilho felino na pele muito clara, ronronando por baixo das pálpebras pesadas de sol. Mesmo Deus teve dificuldade em manter no lugar aquela obra-prima, caíram uns salpicos que lhe ficavam bem, e por isso deixou-os ficar, e foi assim que Deus inventou as sardas. Na moldura esculpiu longos cabelos louros como folhas de acanto, e deu relevo a um nariz pequenino e rebelde onde pousavam como um passarinho as pontas dos dedos do meu pai. A seguir colocou-a sobre duas colunas compridas e esguias, que se moviam com a subtileza das garças. Deus esqueceu-se de lhe deixar instruções, o que ela seguiu à regra, ou tabuada, ou linhas, ou cartilha, ou mesmo catecismo, mas entregou-lhe um bloco de papel branco e um lápis, e indicou-lhe uma casinha escondida no campo, mesmo por trás do mar. Deu-lhe um cão e um gato, uma gaivota para salvar, uma árvore, uma pedra, um espinho. No fim moldou-lhe as mãos, e quando já estavam acabadas, deixou-lhe entre os dedos uma bola de barro, que ela sabia que era um pássaro. E foi assim que Deus a abençoou. 

Para a  Ana Isabel    

reino dos céus

felizes os insensíveis, porque deles é o reino dos céus.

27.10.15

madureza

A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estela,

a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.

Carlos Drummond de Andrade/A Ingaia Ciência  

cara

O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não poder ver, assim como o de não poder fitar os seus próprios olhos. Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha que tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver. O criador do espelho envenenou a alma humana.

Fernando Pessoa/ O Livro do Desassossego

the face without book

Viena, Abril de 2012
«What a joy to be healthy, if you don't have to be alone.»
Sigmund Freud to Martha Bernays -29/4/1885





























Não vejo o rosto a ninguém;
cuidais que são, e não são;
homens, que não vão nem vêm,
parece que avante vão;
antre o doente e o são
mente cad'hora a espia;
na meta do meo-dia
andais entre Lobo e Cão.

Sá de Miranda(1481-1558)/ Entre Lobo e Cão

[ Mas tenho livro de reclamações :)]

feast of friends

25.10.15

parede de Outono


Vejo as vermelhas caudas do crepúsculo
e o verde fulgor do mar.
António Ramos Rosa/Entardecer

24.10.15

bicho


arpad szenes chamava bicho a vieira da silva


a alma nova e o órgão velho

Se olharmos as coisas de acordo com a natureza, o homem foi feito para viver virado para o exterior. Se quiser ver em si mesmo, tem de fechar os olhos, renunciar à acção, sair da corrente. Aquilo a que se chama «vida interior» é um fenómeno tardio que só foi possível devido ao afrouxamento das nossas actividades vitais, não tendo a «alma» podido emergir e dilatar-se senão às custas do bom funcionamento dos órgãos.

E.M.Cioran/ Do inconveniente de ter nascido

notícias da quinta (11)

Não há mãos a medir nesta altura do ano. Das imediações chegam durante o dia as vozes dos tractores, a toada monótona dos chocalhos das ovelhas, a urgência do regresso a casa na estrada secundária ao cair da noite. Mas também durante a noite se trabalha. Máquinas equipadas com holofotes tremendos continuam a sua zoada longínqua e extenuante a gradar a terra amaciada pela chuva, parecendo ao longe os carros a pilhas da infância, que ao tocarem nas cercas voltam para nós os faróis acesos e nos encandeiam nos corredores compridos da memória. De manhã recomeçam cedo, enquanto a marmelada exausta, que ontem já conseguia equilibrar sozinha a colher de pau, repousa hoje nas taças de loiça o seu belo óxido de açúcar envernizado. É a vez das sementes, do escarificador, a aveia a soltar-se e a pesar sob a morrinha, lançados já os dados na grande roleta da sorte desta cartada, deste vício ancestral, com o palpite de que é desta vez que a enorme mesa de jogo da terra se vai cobrir completamente com o suave pano verde, ganhando aos bandos de pássaros e ao exército subterrâneo das formigas. E o tractor ao longe despede-se, com a única companhia dos lenços brancos das garças.

 

23.10.15

Um weepy, sem jeito, (molto amoroso)

Acabo de chegar a casa com um ramo de cheiros. No ar fica um trilho perfumado. Abro a gaiola e dou-o aos pássaros. Sinto-me miserável por não os conseguir libertar, e vou aprofundando a ideia de que será bom fazê-lo na próxima Primavera. Enquanto caminho ninguém me observa, vivo muito tempo sozinha. Os meus amigos dizem-me que fiz um voto de pobreza, que sou uma eremita, e eu acrescento sempre, o único voto que não fiz foi o de castidade, e eles também sabem disso. Mas longe vão os tempos do servilismo do desejo, da urgência do corpo, do exultante prazer. Abri a minha vida, ou o que resta dos meus olhos, dos meus ouvidos, da minha pele, dos meus ossos,(que se desapegam da carne todos os dias ao ritmo das estações), ao voo dos pássaros, ao trilho dos animais, ao espanto de uma borboleta, ao esforço hercúleo da formiga. Não sou feliz, nem infeliz. As leis que agora me governam a vida são tão perversas como a natureza é. Encontrar um animal morto pode acontecer quase ao mesmo tempo do que descobrir uma lebre a correr pelos campos. Ter um blogue é continuar um trilho de ser humano, de se ser humano, é finalmente um encontro de almas e não uma colisão de corpos. A decepção deu-se porque quando começava finalmente a aperceber-me da grandiosidade da alma humana também me senti como uma alma penada. Uma amiga de longa data espantou-se por eu não ter pronúncia do Alentejo, e ainda mais quando eu lhe disse como é que eu posso ter pronúncia do Alentejo, se não falo com ninguém. Demorou tempo, mas encontrei o fluir dos dedos do pensamento, um resort para almas, um spa dos sentidos, um silêncio povoado, revisitado, anónimo: a expressão "parar com essas cores verdoengas" num comentário do JM, deixou-me ver ontem o quanto o nosso estado de espírito pode influenciar a meteorologia dos outros, e logo de seguida aconteceu uma coisa extraordinária, saí a porta e respirei o mesmo ar dos bandos de pintassilgos que colonizavam o jardim. Ele merecia um. 
Obrigada a todos, (mas ainda faltam alguns...).    

22.10.15

E que os pavões dão beijinhos, Outro Ente?














































Xilre, sabia que os peixes também cantam ópera?

























luisa, que tal um passeio no campo?





flor, aceita este "verão dos marmelos"?
































































Susana, e que tal estas bezerras?


Miss Smile, aceita esta borboleta?



JM, aceita um pintassilgo?


Glup! É a Vez da Maria...




21.10.15

Colunas


depois de setembro

No entanto, caídas as colunas de setembro com os
ventos que arrastam as insónias do levante e incendeiam
as planícies, erguem-se nas mãos de um deus morto
os mastros de mármore de um navio antigo. A que porto
se dirigia a sua viagem? Em que recifes projectou o seu 
naufrágio? Nos seus lábios, que os vermes do absoluto
devoram, leio as contas do tempo que ele imaginou
para o seu percurso clandestino, como se um deus
coubesse no porão. «Dizei-me», murmurou no instante
da agonia, «que ave seguirá o rasto do barco até
onde irei chegar?» Mas os homens confundiram
a sua voz com um distante anúncio de tempestade,
e abrigaram-se do céu, fugindo ao seu grito.
(...)
Nuno Júdice/Crença Outonal

de crysanthèmes en crysanthèmes









































































                                   







































































20.10.15

memória. curta # 11

Acendo o foco da memória e dirijo-o para um ponto muito particular do passado. É esse ponto que eu quero ver bem, depois de terem decorrido tantos anos. Tenho a certeza de que era um Sábado invernoso. Preparava-me para sair. Poderiam ser cinco horas da tarde e o fim-de-semana começava a escassear a cada minuto. Ao Sábado era frequente não almoçar porque o horário da manhã acabava por se estender para a tarde, como todas as manhãs ligam com todas as tardes, alheias às conveniências de cada um. Talvez tivesse já tirado a bata, pousado o estetoscópio sobre a secretária, talvez estivesse mesmo a subir as escadas rapidamente em direcção à porta de saída à procura de luz, quando apareceu um último paciente, e tudo se reverteu. Rebobino o tempo, e revejo-me a vestir de novo a bata, um nadinha contrariada, e a recomeçar, com a paciência do princípio. Sentada à espera, vejo entrar um cão cruzado de Pastor Alemão, com ar abatido. Começo a fazer a ficha clínica, e interrogo os donos, dois homens aparentando ser pai e filho, sobre a razão da consulta. O cão tinha-se deitado entretanto e eu não o conseguia ver da secretária. Sabe doutora, começou por dizer o pai, nós temos um quintalito, e este animal está preso à casota durante todo o ano. Vai lá alguém dar-lhe uns restos uma vez por dia e mudar-lhe a água, mas entretanto disseram-nos que ele deixou de comer e fomos lá vê-lo hoje, e...Parecia algo acanhado, e enquanto ia falando enrolava e desenrolava as mãos uma na outra, sem saber bem o que lhes fazer, como se as mãos fossem palavras difíceis de pronunciar. Entretanto eu já tinha contornado a secretária e já tinha dito, vamos lá observá-lo, vamos pô-lo sobre a marquesa. Dirijo o foco do olhar bem para o ponto que me indicavam como pensamos que é disto, mas ele já tem isto há algum tempo. Enquanto o dono ia afastando o pêlo que cobria a corrente que circundava o pescoço, para que eu pudesse ver, vou ficando chocada ao verificar que esta lhe desaparecia completamente sob a pele, para surgir mais de vinte centímetros à frente. O cão foi anestesiado e operado. A cirurgia foi mais complicada pela firme aderência dos tecidos que penetravam e envolviam as argolas de metal. Quando finalmente dei o último ponto e saí para a rua, recordo-me de tentar inspirar, de uma só vez, toda suavidade do ar gelado da noite.