Atalhos de Campo


1.9.15

sinfonia em forma de pêra


Quando acabar o curso vou aprender piano, disse-lhe um dia. Mas não foi. Nunca esmiuçaram o assunto, que pareceu ficar encerrado sob o silêncio pesado da tampa de um piano de cauda. As mãos. Ficava horas a olhar-lhe para as mãos de recém-nascido, enquanto ele dormia, longas, de dedos afilados, parecendo segurar o lençol leve de cambraia, arregaçando-o sobre o peito. E antes disso, antes de ele nascer, o Tejo a diluir-se na distância, a seara ondulante em devaneio, os dedos nadando por dentro da música onírica de Satie, as Gymnopédies que dançavam contorcendo-se como enguias à beira-rio, que se enlaçavam como bailarinos sem palco, gregos escultóricos muito jovens e nus, ondulando como hastes ao vento, presos apenas por um ténue fio na ponta dos dedos magros, como ele e ela, como só uma mãe e um filho, prestes a soltar-se, a deixar-se ir, num último gesto. E por isso, quando um dia ele lhe apareceu em alvoroço e disse que tinha ouvido uma música de piano - linda mãe, linda, talvez conheças, eu nunca a tinha ouvido, mas é como se a conhecesse há muitos anos, (tinham passado muitos, mais de vinte, em que a ouvira, sempre sozinha), - ela se dirigiu ao armário dos CDs com uma segurança inusitada e a colocou a tocar, e era aquela, aquela mesmo, como descobriste... Ficaram a ouvi-la em silêncio, e enquanto a música ainda tocava ela finalmente disse que não se admirava, porque a ouvira todas as tardes, quando estava grávida. Há dias ele telefonou-lhe a perguntar se ela já tinha escolhido a música que deveriam dançar, no dia do seu casamento.   

8 comentários:

  1. E conhecia pois, antes de se conhecer a si mesmo. :)

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  2. Querida Teresa Borges do Canto,
    Estamos sempre a tempo de aprender a tocar piano. Para embalar as crianças que nunca deixarão de o ser e as que hão-de ser.
    Boa tarde,
    Outro Ente.

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    1. Não perdi ainda a esperança que um dia essa tampa se abra.
      E que venham as crianças, para embalar...
      Boa tarde, Outro Ente.

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  3. Olha Teresa...ou não digo nada, ou digo-te a verdade. Este post regou-me os olhos por dentro.

    E o post seguinte, aquele bailado indizível... Satie sozinho já é o que é...mas dançado assim...magia. Pura.

    Obrigada.

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    1. E eu ficava com pena de não ter repartido esta pêra (doce) contigo.

      Um beijo, Susana.

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  4. Sabes que eu quando vi aquele maravilhoso bailado pensei que tu talvez te tivesses lembrado de mim? :-) E isso foi bom, foi muito.

    Um beijinho, querida Teresa.

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    1. Susana, como é que são os olhos regados por dentro?
      E como é que eu ia esquecer?

      Boa noite, querida Susana,[( ainda tens pior feitio do que eu)]
      :)

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