Atalhos de Campo


2.9.15

Haverá um gato adormecido no parapeito do tempo


Até já, quando ele acordar.

«desesperadamente procurando susana»

Hoje, a mãe morreu. Ela pensa muitas vezes nesta frase, ela pensa muitas vezes em como a chocou a condenação daquele homem à forca, por confessar um crime. Ela pensa muitas vezes no julgamento público, na raiva e no ódio contra aquele homem que pôs a mãe num lar, e que foi ao cinema no dia em que a mãe morreu, e ninguém o viu chorar, e foi isso que verdadeiramente o condenou, não o crime que cometeu. Isso acompanha-a desde a adolescência, esse medo, o medo dele, antes da morte, o absurdo da sua verdade. E pensa muitas vezes no soldadinho derretido e encontrado na lareira arrefecida, em forma de coração de chumbo. E na susana, a sua amiga desaparecida, da falta que lhe faz. E nesse fenómeno da transferência, que transforma um soldadinho de brincar sem uma perna, num estranho, e uma bailarina de papel, em lantejoula. Ela pensa naquele casaco que herdou da mulher da sua idade que morreu com cancro, da mulher desconhecida, e de como ele a abraça, quando o veste. Podia ser o casaco de susana.  

Diz-me, onde estará o fumo?























De onde viemos? Para onde nos dirigimos? Qual é a razão de ser?
Para nós a vida é ininteligível.
Oh tantas almas imaculadas se transformaram em cinza e pó, sob a abóbada azul!
Diz-me, onde estará o fumo?

Omar Khayyam

1.9.15

lento e doloroso



Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen/ Prece


sinfonia em forma de pêra


Quando acabar o curso vou aprender piano, disse-lhe um dia. Mas não foi. Nunca esmiuçaram o assunto, que pareceu ficar encerrado sob o silêncio pesado da tampa de um piano de cauda. As mãos. Ficava horas a olhar-lhe para as mãos de recém-nascido, enquanto ele dormia, longas, de dedos afilados, parecendo segurar o lençol leve de cambraia, arregaçando-o sobre o peito. E antes disso, antes de ele nascer, o Tejo a diluir-se na distância, a seara ondulante em devaneio, os dedos nadando por dentro da música onírica de Satie, as Gymnopédies que dançavam contorcendo-se como enguias à beira-rio, que se enlaçavam como bailarinos sem palco, gregos escultóricos muito jovens e nus, ondulando como hastes ao vento, presos apenas por um ténue fio na ponta dos dedos magros, como ele e ela, como só uma mãe e um filho, prestes a soltar-se, a deixar-se ir, num último gesto. E por isso, quando um dia ele lhe apareceu em alvoroço e disse que tinha ouvido uma música de piano - linda mãe, linda, talvez conheças, eu nunca a tinha ouvido, mas é como se a conhecesse há muitos anos, (tinham passado muitos, mais de vinte, em que a ouvira, sempre sozinha), - ela se dirigiu ao armário dos CDs com uma segurança inusitada e a colocou a tocar, e era aquela, aquela mesmo, como descobriste... Ficaram a ouvi-la em silêncio, e enquanto a música ainda tocava ela finalmente disse que não se admirava, porque a ouvira todas as tardes, quando estava grávida. Há dias ele telefonou-lhe a perguntar se ela já tinha escolhido a música que deveriam dançar, no dia do seu casamento.   

sinfonia em amarelo maior