Atalhos de Campo


26.8.15

uma quinta com tomates



Julho fora há um odor muito particular que invade a quinta, quente e vermelho, diria, porque intenso, e levemente enjoativo quando misturado com o sol a pino, mas que se resolve numa semana. Se o olhar procurasse o cheiro, encontrá-lo-ia a fluir do telhado da entrada, envolto em vapor de água, enfiando-se pelas narinas da casa, ou formando pequenas nuvens que descem sobre o jardim e pousam em redor, nos muros e sebes. Tabuleiros embrulhados em tule, com tomate cortado ao meio polvilhado de sal, a cativar o sol e a transpirar o suor da Calábria, neste outro sul, rodam como girassóis até à noite, para então se resguardarem, recolhidos de humidades indesejáveis. Abundante, enorme, tenro como um coração de boi; chucha, firme e oblongo; cereja, em cachos que sobrevivem ao tempo como os berlindes. Cortado em saladas balsâmicas perfumadas com orégão e manjericão, a derrapar de maduro sobre fatias de pão dourado, temperando o entardecer como sumos escarlate entornados no azul por trás dos freixos, com gelo, tabasco e pimenta, frascos tremendo no arrepio do escaldão em banho-maria durante cinco minutos, prontos para enfrentar invernias, nas sopas quentes, como ninhos a ansiar por receber os ovos de fraca fresquíssimos, ou hibernado em azeite virgem extra, pura iguaria a aguardar partilha. E muitas sobras, que os animais comem agradecendo a demasia. Aqui chamam-lhe fartura. Nunca me passaria pela cabeça atirar-te com um tomate, mas hoje porta-te bem.

(a propósito de La Tomatina, Buñol, Espanha)  
  

10 comentários:

  1. seria feliz com pão, queijo e tomate.
    este texto trás-me a fartura da infância. obrigada.

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  2. O tomate é a delícia do Verão e a iguaria do Inverno.
    Que confusão me faz o desperdício...

    Que bom que foi fazer uma flor regressar à "fartura" da infância.
    Eu é que agradeço.

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  3. Querida Teresa Borges do Canto,
    E o doce de tomate? O meu preferido. Feito em casa da avó, para aproveitar a fartura. Tão bom.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente,
      Imperdoável esquecimento.
      Maravilhoso, sobre requeijão, com hortelã e mirtilos, e amoras e ...framboesas.
      Ainda bem que me completou o texto!
      Um beijo (bem merecido).

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  4. Haja tomates! :)))

    Beijinhos, Teresa, e uma boa noite.

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    1. Maria, Maria, sempre Eu. (miúda gira, às vezes mesmo muito).
      Boa noite. :)))

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  5. ODA AL TOMATE

    La calle
    se llenó de tomates,
    mediodía,
    verano,
    la luz
    se parte
    en dos
    mitades
    de tomate,
    corre
    por las calles
    el jugo.
    En diciembre
    se desata
    el tomate,
    invade
    las cocinas,
    entra por los almuerzos,
    se sienta
    reposado
    en los aparadores,
    entre los vasos,
    las mantequilleras,
    los saleros azules.
    Tiene
    luz propia,
    majestad benigna.
    Debemos, por desgracia,
    asesinarlo:
    se hunde
    el cuchillo
    en su pulpa viviente,
    es una roja
    víscera,
    un sol
    fresco,
    profundo,
    inagotable,
    llena las ensaladas
    de Chile,
    se casa alegremente
    con la clara cebolla,
    y para celebrarlo
    se deja
    caer
    aceite,
    hijo
    esencial del olivo,
    sobre sus hemisferios entreabiertos,
    agrega
    la pimienta
    su fragancia,
    la sal su magnetismo:
    son las bodas
    del día,
    el perejil
    levanta
    banderines,
    las papas
    hierven vigorosamente,
    el asado
    golpea
    con su aroma
    en la puerta,
    es hora!
    vamos!
    y sobre
    la mesa, en la cintura
    del verano,
    el tomate,
    astro de tierra,
    estrella
    repetida
    y fecunda,
    nos muestra
    sus circunvoluciones,
    sus canales,
    la insigne plenitud
    y la abundancia
    sin hueso,
    sin coraza,
    sin escamas ni espinas,
    nos entrega
    el regalo
    de su color fogoso
    y la totalidad de su frescura.
    Pablo Neruda, in Odes Elementares

    Eu também não compreendo tanto desperdício de tomate, esse fruto que canta o verão e adoça o inverno.

    Um beijinho, Teresa

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    1. Lindíssimo, Miss Smile.
      A alma de Neruda inteira nesta ode de sol;
      a deixar aqui mais uma volta de azul.

      Um grande beijinho

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  6. Um texto de odores, sabores e memórias. Tão bom!

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    1. Como nos aqueceríamos no inverno sem as memórias do verão?
      Obrigada luisa

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