Atalhos de Campo


28.8.15

receita de anatomia

Às cinco horas da tarde foi buscá-lo ao frigorífico do alpendre. Mataste um frango, tinha-lhe perguntado receosa, mas a resposta vinha sempre a mesma, não fui eu que o matei. Era verdade. Ia desembrulhando o pensamento ao mesmo tempo que calçara umas luvas de cozinha para começar a prepará-lo. Tirou o saco de plástico fino, que como uma segunda pele o protegia. Apareceu-lhe diante dos olhos um belo corpo de galo, perfeito. Até os cadáveres podem ser belos, embora neste caso não quisesse pensar que estava, de facto, a manipular um. Um frango de supermercado não é um cadáver, perdeu esse título há muito tempo. Admirou-lhe os peitorais, que se estendiam mais do que o normal pelo abdómen, vestidos de pele acetinada e dourada pelos carotenos, as coxas robustas e afastadas, as asas compostas sobre o peito. Pegou nele, tomando-lhe o peso, abraçando-o com os dedos. A mão direita desaparecia-lhe, maquinal pelas entranhas, e arrastava o fígado, a moela e o coração, que se separou do resto e caiu sozinho na bancada. Era grande e limpo. Já lavado deitou-o no tabuleiro; não cabia. Teve que ir buscar um maior. Com o dedo indicador foi dissecando a pele do peito e fez deslizar uma colher de pesto caseiro de cada lado. Massajou-o com piso de coentros, e polvilhou-o com pimentão doce. Descascou um limão apanhado nessa manhã, deu-lhe alguns golpes e colocou-o dentro do majestoso galo, agora vestido a rigor, com o seu manto de ervas do campo perfumadas de citrinos. Rodeou-o de batatas e cebolinhas da horta, regadas com vinho branco; deixou cair várias pétalas de alho, como se fossem de malmequer, sobre todo o cortejo, e depois fez o mesmo com orégãos. Tinha perante si uma obra de arte, pensou, enquanto espargia o azeite; era o mínimo que podia fazer por ele. Colocou o tabuleiro no forno, e enquanto ele cozinhou pegou na máquina, e foi fotografar os outros galos.

2 comentários:

  1. Tive algumas aulas de anatomia com a minha avó. Enquanto matava o galo, depenava e cortava, ia-me explicando os órgãos e as várias partes do animal.
    O seu texto, tão bonito, "desembrulhou-me" estas belas recordações :)
    A minha avó cozinhava-o com o esmero de cozinheira experimentada, porque, e como muito bem diz a Teresa, era o mínimo que podia fazer por ele :)

    Um beijinho

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    1. São lições que ficam para a vida, Miss Smile, e a dignidade é importante até na morte. Tenho aqui alguns protegidos, que morrerão de velhos, mas não consigo fazê-lo por todos. Este último grupo de pintainhos não teve sorte; se houvesse alguma fêmea ainda a conseguia resgatar. :)

      Um beijinho.

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