Atalhos de Campo


27.8.15

Em Agosto tem mais gosto

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Ricardo Reis/Odes


A Lídia telefona sempre em Agosto. Pergunta pelos meninos, pelo Sr. Doutor, por mim. Viveu aqui, há alguns anos, e ainda existe uma casa com o nome dela, a casa da Lídia. Da janela do seu antigo quarto via a nora que costumava caiar de branco, e o tanque de pedra, sobre o qual se debruçam as folhas escuras e aromáticas do loureiro, insistindo em procurar o reflexo no fundo seco. O coração da Lídia estava cansado, como o da velha nogueira que entretanto morreu, as mãos pesadas, os olhos tristes. Já não havia meninos para vestir dentro da cama no frio do Inverno, a não ser o próprio filho ainda pequeno, nem as suas famosas panquecas iluminavam os pequenos-almoços ensonados, nem lume para fazer às cinco horas da tarde. Então mudou-se para a vila, para uma casinha que comprou com um limoeiro à frente, e mandou instalar um ar condicionado. Mas em Agosto pede para vir visitar o loureiro que lhe temperava outros tempos, e mete pés ao caminho. Deve vir muito cedo porque ninguém a vê. Suponho que se senta junto à casa do hortelão, para sentir a frescura do ar da manhã nas asas dos pássaros. Enquanto descansa da caminhada, o olhar segue uma rola assustada que desaparece por entre os pinheiros. Põe-se à escuta, mas a ribeira emudeceu, deixando apenas o trilho húmido e frio da noite, escondido nas canas altas. Suspira ao pegar na tesoura que trouxe no bolso da bata, e levanta-se com dificuldade. A árvore espera placidamente, e estende-lhe alguns ramos, para que os corte. A Lídia sabe, tenho a certeza, que Apolo a espreita, mas Dafne agora está em segurança, profundamente enraizada, junto aos antigos criadores. 



Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Ricardo Reis/Odes 

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