Atalhos de Campo


5.8.15

Isabel

A Isabel está ligada à morte da minha avó. No fim dos anos noventa a casa foi ficando adormecida numa penumbra de recantos, fotografias, recordações. E foi a esta casa que Isabel chegou, uma casa a preparar-se para morrer até ficar fechada à chave, à espera que toda a luz se fosse esgotando, no bater já leve do seu coração cansado. A vida, fora da porta do nº4, era implacável, exigente, sem contemplações, e, ao subir a escada para visitar a minha avó(eram muitas as vezes em que lhe fazia companhia ao almoço), sabia que chegava a uma espécie de templo. Encontrava-a sentada, depois do banho e da massagem à perna doente, com o terço entrelaçado nos dedos, tacteando contemplações e mistérios, cujas pausas, assinaladas pelos muitos nós percorridos, marcavam em horas, rosários de solidão. Mas, por vezes, batia de leve à porta do quarto onde a Isabel acabara de lhe dar a massagem, as suas mãos contrastando fortemente com a pele muito branca e acetinada da minha avó. Enquanto esperava pelo almoço gostava de me deitar sobre a sua cama: o tecto alto, o verde-água das paredes, a tranquilidade de aquário, a colcha em linha de algodão branco, tricotada à mão, fresca como espuma de mar e alfazema, iam-me devolvendo à costa numa espécie de maré baixa, de paz. E era revigorada que me sentava à mesa, para lhe contar do último caso clínico, para lhe falar do bisneto e assim lhe reacender os olhos em muito azul, e perguntar-lhe pelos tempos antigos, pelas peripécias no colégio onde estivera como aluna interna, e que eu sabia de cor, mas que fingia ouvir pela primeira vez, enquanto a Isabel servia o almoço, com uma compostura mergulhada na luz ténue das janelas altas, que haviam há muito perdido o tempo. Essa luz fixava-se nela, nas feições correctas, nas cores claras que vestia, que faziam sobressair a delicadeza das mãos como ilhas de cabo-verde, onde agora ancoravam pratos, travessas, o cesto do pão, naturezas-mortas desenhadas à sombra tranquila e serena de um sorriso triste, que adivinha desfechos e conclusões. E por isso as notas de alegria eram muito mais exuberantes, os ramos de violeta que lhe levava, eram violentos como requiems, os morangos eram como desejos oferecidos em taças, o café fumegava, deixando o aroma fugir das chávenas ainda intactas. E nas noites, que eram longas quando ficava sozinha,(a minha avó deitava-se sempre tarde), enquanto assistia a programas na televisão, trocava opiniões com a vizinha do lado, uma velha amiga a quem telefonava noite fora, ou vice-versa, cada uma sentada no seu sofá. E ao almoço contava-me que tinham ambas estado a ver O Império dos Sentidos de Nagisa Oshima, um filme escabroso, e se tinham telefonado várias vezes, indignadas, perplexas. E a Isabel escutava com um sorriso pouco mais que esboçado, um sorriso que ainda deve pairar sobre qualquer mesa, ou qualquer casa, algures entre a sobremesa e o café.     

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