Atalhos de Campo


26.8.15

a espera

Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
é então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene

Sophia de Mello Breyner Andresen/ Espera
Geografia 

2 comentários:

  1. A Festa do Silêncio

    Escuto na palavra a festa do silêncio.
    Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
    As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
    Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
    É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

    Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
    o ar prolonga. A brancura é o caminho.
    Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
    Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
    Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

    Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
    É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
    No centro do dia há uma fonte de água clara.
    Se digo árvore a árvore em mim respira.
    Vivo na delícia nua da inocência aberta.

    António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

    Excelente escolha, Teresa :)

    Um beijinho

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    Respostas
    1. "Quem escreve quer morrer, quer renascer
      num ébrio barco de calma confiança.
      Quem escreve quer dormir em ombros matinais
      e na boca das coisas ser lágrima animal
      ou o sorriso da árvore. Quem escreve
      quer ser terra sobre a terra, solidão
      adorada, resplandecente, odor de morte
      e o rumor do sol, a sede da serpente,
      o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
      o negro meio-dia sobre os olhos."

      António Ramos Rosa/ Quem Escreve

      A uma escritora, *ao rumor do sol do meio-dia.
      Um beijinho

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