Atalhos de Campo


21.8.15

desconversa

é das desconversas que nasce a luz;
a conversar é que a gente se desentende. 

6 comentários:

  1. (des)conversa com a pedra

    Bato à porta da pedra.
    – Sou eu, deixa-me entrar.
    Quero penetrar no teu interior,
    olhar ao redor,
    prender-te como a respiração.

    – Sai – diz a pedra.
    Sou hermeticamente fechada.
    Mesmo quebradas em pedaços
    vamos ficar hermeticamente fechadas.
    Mesmo trituradas em grãos
    não vamos deixar ninguém entrar.

    Bato à porta da pedra.
    – Sou eu, deixa-me entrar.
    Venho por curiosidade pura.
    A vida é a única ocasião para ela.
    Pretendo passear pelo teu palácio,
    e depois visitar a folha e a gota dӇgua.
    Não tenho muito tempo para tanto.
    Minha mortalidade deveria te comover.

    – Sou de pedra – diz a pedra –
    e sou obrigada a manter a seriedade.
    Sai daqui.
    Não tenho os músculos do riso.

    Bato à porta da pedra.
    – Sou eu, deixa-me entrar.
    Ouvi dizer que em ti há grandes salas vazias,
    nunca vistas, inutilmente lindas,
    surdas, sem eco de passos de quem quer que seja.
    Reconhece, tu mesma não sabes muito sobre isto.

    – Salas grandes e vazias – diz a pedra –
    mas nelas lugar não há.
    Lindas, talvez, mas além do gosto
    de teus pobres sentidos.
    Podes me conhecer, mas me provar nunca.
    Com toda a minha superfície me volto para ti,

    mas com todo o meu interior te dou as costas.

    Bato à porta da pedra.
    – Sou eu, deixa-me entrar.
    Não busco em ti um refúgio para a eternidade.
    Não sou infeliz.
    Não estou desabrigada.
    Meu mundo é digno de retorno.
    Vou entrar e sair com as mãos vazias.
    E como prova de que realmente estive pre sente,
    não vou mostrar nada além de palavras
    às quais ninguém dará fé.

    – Não vais entrar – diz a pedra –
    Falta a ti o sentido da participação.
    Nenhum sentido substitui o sentido da participação.
    Mesmo a visão elevada até à clarividência
    não serve para nada sem o sentido da participação.
    Não vais entrar, tens apenas uma noção deste sentido,
    apenas o seu germe, sua imagem.

    Bato à porta da pedra.
    – Sou eu, deixa-me entrar.
    Não posso esperar dois mil séculos
    para entrar debaixo do teu teto.

    Se não crês em mim – diz a pedra –
    Dirige-te à folha, ela te dirá o mesmo que eu,
    e à gota d”água, que te dirá o mesmo que a folha.
    Por fim pergunta aos fios de teu próprio cabelo.
    Um riso se alarga em mim, um riso, um riso enorme,

    que eu não sei rir.

    Bato à porta da pedra.
    – Sou eu, deixa-me entrar.
    – Não tenho porta – diz a pedra.

    Wisława Szymborska
    (adoro este poema)


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "A pedra é bela, opaca,
      peso-a gostosamente como um pão.
      É escura, baça, terrosa, avermelhada,
      polvilhada de cinza.
      Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
      preciosa."

      António Ramos Rosa

      Obrigada flor, pela desconversa preciosa.


      Eliminar
  2. é tão bom desconversar consigo :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. é verdade, fez-se uma certa luz; a luz das boas desconversas... :)

      Eliminar