Atalhos de Campo


30.8.15

Zen





































































Shangri-La

Quando chegares a Shangri-La, tira os sapatos e mantém-te em silêncio, pois só assim ouvirás cantar os pássaros. Ramos de árvores cobrir-te-ão para que à sua sombra possas contemplar o jardim. Da terra sairão braços cobertos de flores, descobrirás uma rosa branca fora do seu tempo. Zínias de todas as cores renascerão das antigas corolas secas, e borboletas brancas continuarão a dançar em sua volta, à luz clara das manhãs de Outono. Os peixes dormirão entre os nenúfares à hora de maior calor, quando as vespas poisam nas folhas para beber água, mas ao fim da tarde senta-te à beira do lago, e verás que virão comer das tuas mãos. Petúnias encostarão suavemente as corolas cerúleas às pedras do caminho. Haverá um gato adormecido no parapeito do tempo, e um gafanhoto de olhos atentos assumirá a cor da folha. Abelhas aspergirão alfazema durante o voo, que será intensa ao entardecer. Um fio de água fresca dançará no vento, quando ouvires tilintar o bambu. Um manto de Allyssum azul cobrirá a tua nudez, e terás no cabelo o aroma da verbena. Um louva-a-deus sairá do seu abrigo entre os malmequeres, quando a Lua ocupar o céu. Poderás sempre partir com as andorinhas, mas não mais voltarás a Shangri-La.    

28.8.15

receita de anatomia

Às cinco horas da tarde foi buscá-lo ao frigorífico do alpendre. Mataste um frango, tinha-lhe perguntado receosa, mas a resposta vinha sempre a mesma, não fui eu que o matei. Era verdade. Ia desembrulhando o pensamento ao mesmo tempo que calçara umas luvas de cozinha para começar a prepará-lo. Tirou o saco de plástico fino, que como uma segunda pele o protegia. Apareceu-lhe diante dos olhos um belo corpo de galo, perfeito. Até os cadáveres podem ser belos, embora neste caso não quisesse pensar que estava, de facto, a manipular um. Um frango de supermercado não é um cadáver, perdeu esse título há muito tempo. Admirou-lhe os peitorais, que se estendiam mais do que o normal pelo abdómen, vestidos de pele acetinada e dourada pelos carotenos, as coxas robustas e afastadas, as asas compostas sobre o peito. Pegou nele, tomando-lhe o peso, abraçando-o com os dedos. A mão direita desaparecia-lhe, maquinal pelas entranhas, e arrastava o fígado, a moela e o coração, que se separou do resto e caiu sozinho na bancada. Era grande e limpo. Já lavado deitou-o no tabuleiro; não cabia. Teve que ir buscar um maior. Com o dedo indicador foi dissecando a pele do peito e fez deslizar uma colher de pesto caseiro de cada lado. Massajou-o com piso de coentros, e polvilhou-o com pimentão doce. Descascou um limão apanhado nessa manhã, deu-lhe alguns golpes e colocou-o dentro do majestoso galo, agora vestido a rigor, com o seu manto de ervas do campo perfumadas de citrinos. Rodeou-o de batatas e cebolinhas da horta, regadas com vinho branco; deixou cair várias pétalas de alho, como se fossem de malmequer, sobre todo o cortejo, e depois fez o mesmo com orégãos. Tinha perante si uma obra de arte, pensou, enquanto espargia o azeite; era o mínimo que podia fazer por ele. Colocou o tabuleiro no forno, e enquanto ele cozinhou pegou na máquina, e foi fotografar os outros galos.

27.8.15

Galos


Em Agosto tem mais gosto

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Ricardo Reis/Odes


A Lídia telefona sempre em Agosto. Pergunta pelos meninos, pelo Sr. Doutor, por mim. Viveu aqui, há alguns anos, e ainda existe uma casa com o nome dela, a casa da Lídia. Da janela do seu antigo quarto via a nora que costumava caiar de branco, e o tanque de pedra, sobre o qual se debruçam as folhas escuras e aromáticas do loureiro, insistindo em procurar o reflexo no fundo seco. O coração da Lídia estava cansado, como o da velha nogueira que entretanto morreu, as mãos pesadas, os olhos tristes. Já não havia meninos para vestir dentro da cama no frio do Inverno, a não ser o próprio filho ainda pequeno, nem as suas famosas panquecas iluminavam os pequenos-almoços ensonados, nem lume para fazer às cinco horas da tarde. Então mudou-se para a vila, para uma casinha que comprou com um limoeiro à frente, e mandou instalar um ar condicionado. Mas em Agosto pede para vir visitar o loureiro que lhe temperava outros tempos, e mete pés ao caminho. Deve vir muito cedo porque ninguém a vê. Suponho que se senta junto à casa do hortelão, para sentir a frescura do ar da manhã nas asas dos pássaros. Enquanto descansa da caminhada, o olhar segue uma rola assustada que desaparece por entre os pinheiros. Põe-se à escuta, mas a ribeira emudeceu, deixando apenas o trilho húmido e frio da noite, escondido nas canas altas. Suspira ao pegar na tesoura que trouxe no bolso da bata, e levanta-se com dificuldade. A árvore espera placidamente, e estende-lhe alguns ramos, para que os corte. A Lídia sabe, tenho a certeza, que Apolo a espreita, mas Dafne agora está em segurança, profundamente enraizada, junto aos antigos criadores. 



Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?
Ricardo Reis/Odes 

26.8.15

uma quinta com tomates



Julho fora há um odor muito particular que invade a quinta, quente e vermelho, diria, porque intenso, e levemente enjoativo quando misturado com o sol a pino, mas que se resolve numa semana. Se o olhar procurasse o cheiro, encontrá-lo-ia a fluir do telhado da entrada, envolto em vapor de água, enfiando-se pelas narinas da casa, ou formando pequenas nuvens que descem sobre o jardim e pousam em redor, nos muros e sebes. Tabuleiros embrulhados em tule, com tomate cortado ao meio polvilhado de sal, a cativar o sol e a transpirar o suor da Calábria, neste outro sul, rodam como girassóis até à noite, para então se resguardarem, recolhidos de humidades indesejáveis. Abundante, enorme, tenro como um coração de boi; chucha, firme e oblongo; cereja, em cachos que sobrevivem ao tempo como os berlindes. Cortado em saladas balsâmicas perfumadas com orégão e manjericão, a derrapar de maduro sobre fatias de pão dourado, temperando o entardecer como sumos escarlate entornados no azul por trás dos freixos, com gelo, tabasco e pimenta, frascos tremendo no arrepio do escaldão em banho-maria durante cinco minutos, prontos para enfrentar invernias, nas sopas quentes, como ninhos a ansiar por receber os ovos de fraca fresquíssimos, ou hibernado em azeite virgem extra, pura iguaria a aguardar partilha. E muitas sobras, que os animais comem agradecendo a demasia. Aqui chamam-lhe fartura. Nunca me passaria pela cabeça atirar-te com um tomate, mas hoje porta-te bem.

(a propósito de La Tomatina, Buñol, Espanha)  
  

after hours

a espera

Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
é então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene

Sophia de Mello Breyner Andresen/ Espera
Geografia 

24.8.15

selfie on a selfie stick

A família Girassol mostra a avó, feliz nos seus noventa anos










O primeiro sorriso da nossa Papoila, ao colo do pai

Lúcia-Lima, radiosa, à saída da praia com os netos: 
Açucena, Iris e o pequeno Lírio, de dois anos



























Malmequer A. Frutescens, diverte-se com as amigas 
Zínia Elegans, depois de ter  deixado Violeta Saintpaulia Ionantha inconsolável 
Hortênsia de Beauharnais, mostra-se preocupada depois da sua 25ª cirurgia plástica










































































Antúrio Navasii, feliz ao lado da sua 5ª mulher,
recém-chegados da lua de mel, na Índia, fogem às abelhas
Rosa Carolina, chega aos 7000 likes
Tulipa Ostrowskiana, entusiasmada com o seu kindle
depois do banho em São Torpes, apanha escaldão
Gardenia Candida, sozinha no Bliss de Vilamoura

Narcissus Hybridus Hort., bronzeado, fez snorkeling nas Maldivas
Margarida-de-paris, no primeiro dia de praia, diverte-se
com as amigas, a colocar crème solaire

21.8.15

desconversa

é das desconversas que nasce a luz;
a conversar é que a gente se desentende. 

o des com (sol) o


























Quem fala
não sou eu
é o outro o que me expulsou 
da concha do meu sol

É ele que caminha nos meus passos
e eu olho-o e esqueço-o
Quem pode suportar um reflexo?
Quem pode viver contra o seu duplo?

Eu digo eu ainda
mas sou eu que declino
sou eu que caio
com a ferida do sol que ele me arrancou

António Ramos Rosa



20.8.15

criar


























Atravessei o sol pelo dia dividido ao meio. Assisti à debandada da orquestra, os violinos fugindo em revoadas de estorninhos de casaca negra, uma gralha de sentinela, as rolas dando o tom de aviso em voo, as primeiras, pintassilgos, um brilho timbrado, arvéolas de peito amarelo, curiosas, as últimas em palco, baloiçando nos triângulos da percussão. E silêncio. Galhos como fracturas. Habitávamos a sombra dos pinheiros vazios, dos freixos, cortando a pique fronteiras de sol. A espera. Aparição, cautelosa. Subtil beleza, a tua, transborda.   

criar uma flor


























Criar uma pequena flor é trabalho de séculos.
William Blake/«Proverbs of Hell»,The Marriage of Heaven and Hell

19.8.15

coexistência pacífica

Tão bela é a noite. Dançam mariposas na luz sobre a mesa, um besouro atordoado cai, mas fica imóvel e finge-se de morto durante muito tempo, para assim melhor contemplar o céu. Num relógio de cuco ouve-se o pio de uma coruja na mudança de turno, às onze horas da noite em ponto. A Via Láctea deixa passar um avião apressado, enquanto segura a sua saia esvoaçante de estrelas. 

à espreita


a oitava emenda

este blogue privilegiará (sempre), 
os atalhos entre a poesia e a prosa.

18.8.15

a epífora da velha Alice

não mexas nisso, não mexas mais nisso. a Alice contava sempre a mesma história quando aparecia inesperadamente para almoçar, com os seus quase cem anos, e, com os olhos a lacrimejar pela epífora, ia abanando a cabeça de uma maneira estranha, na qual já não conseguia ter firmeza pela muita idade, nem nas mãos pequeninas de dedos oscilando como ramos secos na ponta da árvore muito antiga que era, tão tortos, nodosos e enrugados que tremiam para segurar o gesto, a menina não mexe, dizia eu, que ela não vira crescer, prodígio que ninguém vira na totalidade, doze centímetros num ano, sabias, e a Alice, que me conhecera com dois anos, sorria a chorar quando me dizia que eu atirava tudo ao chão, enquanto não parava de balbuciar a menina não mexe 

17.8.15

os bois

Ao fim da tarde passavam os bois e nós corríamos para o portão para os vermos aparecer por entre os eucaliptos do outro lado, até seguirem pela estrada, mesmo em frente da nossa casa. E gritávamos os boiis, os boiis, os boiis... quando os mais atrasados corriam, fustigados pela vara do pastor, e, envoltos numa nuvem de pó, se juntavam ao resto da manada. Era mesmo antes da hora do nosso banho. Naquele dia um cão saltou o muro, que ficou tingido de sangue, e veio refugiar-se no jardim. Arfava. Era um cão amarelo, magro, com olhos também amarelos, da cor do pêlo. Atrás dele vinha um homem, que ficou do lado de fora, a ameaçá-lo. Lembro-me de correr para o cão, e de me abraçar ao seu pescoço, enquanto se apressavam a levar os meus irmãos para dentro de casa. O cão tinha um golpe profundo no tórax, por onde saíam golfadas de sangue de cada vez que respirava. Comecei a chorar e a soluçar enquanto pedia para não o darem ao homem, que dizia que ele era ladrão, que roubara comida, e por isso lhe espetara uma faca. E depois foi tudo muito rápido, eu queria tapar o ferimento com as mãos, e esperneava, dava pontapés, chorava, implorava, enquanto me agarravam à força. Quando finalmente me conseguiram levar para dentro, e me meteram na banheira, tinha a cara, o cabelo, as mãos e a roupa, com uma pasta de terra, de sangue, e de lágrimas, que saiu com a água, mas ficou uma ferida para sempre, que nunca mais cicatrizou.

a porta
































































































e o teu?

(...)sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
(...)
Herberto Helder