Atalhos de Campo


27.7.15

Rosa

Chego a casa de Rosa enquanto arranco as guias da grama que invadiram o canteiro e se foram infiltrado por todo o lado, até desaparecerem por baixo do rebordo da piscina. Enfio os dedos na terra, procuro o segmento que se agarrou fortemente ao chão, sufocando a raiz das gazânias, penso como é possível, ainda há tão pouco tempo...de unhas sujas de terra, toco à campainha. Toco à tua campainha há trinta e três anos, Rosa, mas hoje, desculpa-me, acabei de jardinar, digo-lhe, e mostrando as mãos sujas, posso lavar as mãos? Rosa indica-me a casa de banho e acende-me a luz. A Rosa tem uma casa bonita, espaçosa, bem mobilada. Mora no segundo andar de um prédio no mesmo bairro que eu, mas a vista não é tão boa como a da janela da minha cozinha, de onde se consegue ver uma enorme seara que se perde pelo Tejo fora num mar de palha, dizia eu, a vista da sala comum da Rosa é para o espaço ajardinado entre os prédios, e para o prédio em frente. Há uma solenidade, uma arrumação, uma penumbra, uma tristeza monocromátiva no ambiente onde chego de mãos lavadas, que me faz pensar que desta vez lhe deveria ter levado um ramo de zínias, ficava ali tão bem, na mesa redonda entre os dois sofás em pele. O teu marido já veio, pergunto-lhe, e a Rosa diz-me que não, que a safra do bacalhau desta vez foi mais prolongada, que ele tem que aproveitar tudo, agora que pagam a casa, e com o menino doente. Rosa, tens uma casa tão bonita, gosto tanto de aqui vir, não te importas, vou sentar-me só um bocadinho, estou tão cansada, então conta-me lá o que se passa com o teu filhote...e a Rosa começa a contar-me sobre a doença do filho que ainda não tem um ano, e eu vou-me afundando no sofá que geme a cada movimento, e de repente verifico que as minhas mãos têm rugas, cortes que sangram, calos, cicatrizes, e olho para as suas, e lembro-me do que me disse um dia, quando eu me queixara que não conseguia cortar as unhas ao meu filho porque tinha medo, e ela dissera eu ajudo-a, eu corto com um corta-unhas ao meu, tem um corta-unhas, eu tinha mas tremia, e ela cortara as unhas do bebé na perfeição, e a partir daí partilhámos as nossas experiências de jovens mães, lembras-te Rosa, eu dava doze horas de explicações por dia, e tu ajudavas-me vindo duas vezes por semana, também tocavas à minha campainha Rosa, para meu alívio. Até que um dia fui eu que te pedi para te sentares, e te disse que não ia conseguir mais pagar-te, porque o meu marido ficara desempregado, e foi então que tu me disseste que não sabias ler, e me pediste se podias continuar a trabalhar, em troca de eu te ensinar a ler.       

6 comentários:

  1. Que troca maravilhosa e que privilégio o seu, Teresa, contribuir de uma forma tão ativa para a alfabetização de alguém. Que metamorfose se terá operado no interior dessa mulher? Que descobertas?
    Na vida, nem tudo são rosas, é verdade, mas há sempre alguma verdura da cor da esperança.

    Um beijinho e um dia feliz :)

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    1. Boa noite, Miss Smile, era uma mulher muito especial e boa, e por muito que lhe tenha aberto horizontes, a dívida será sempre minha. Esta foi uma Rosa que teve que enfrentar os seus próprios espinhos, e um em particular, o pior de todos.

      Um beijinho, e um sorriso.

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  2. Querida Teresa Borges do Canto,
    Há histórias que não têm preço. Como estas que tão bem conta.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Boa noite, Outro Ente,
      Esse elogio, vindo de si, é que não tem preço.
      Gostei de revisitar a Rosa, uma mulher forte que me ajudou muito, apesar de precisar de muito mais ajuda do que eu.
      Um beijo também.

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  3. It is the time you have wasted for your rose that makes your rose so important.

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    1. "- Foi o tempo que perdi com a minha rosa...repetiu o principezinho, a fim de se recordar."

      "(...) Eis o jardim.
      Porém, a autoridade deste não vem das árvores,
      mas sim de pequenos pormenores.
      Por exemplo: o homem de negócios dá a volta
      para não pisar uma flor minúscula.
      Chegará atrasado à reunião?"
      Gonçalo M. Tavares/ Homenagem

      Sim, flor, é isso mesmo.

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