Atalhos de Campo


20.7.15

portão fechado

eu vi uma asa de pássaro inteira no canteiro de cravos-do-poeta
                                como se fosse um cravo de Cristo
eu vi um jovem pardal, morto no tapete da entrada de casa
                                como se fosse uma oferenda
eu vi uma pata do borrego desaparecido tão pequena e branca,
                                jazendo sobre o relvado  
eu vi cadáveres de passarinhos recém-nascidos caídos dos ninhos
eu vi um bando de corvos a esvoaçar em volta dos freixos antigos
eu vi um milhafre a sobrevoar os pavões que seguiam a mãe
                                e depois vi que só restava um
eu vi uma ervilha-de-cheiro a enrolar as gavinhas 
                                em volta de outra
eu juro que vi uma hera a matar uma árvore
eu vi trepadeiras a correr os cem metros com barreiras
eu vi uma erva daninha encostada a um cacto
eu vi um malmequer a imitar uma rosa
  

8 comentários:

  1. Cara Teresa Borges do Canto,
    Eu ouvi uma camélia vaidosa acercar-se de uma rosa.
    (Só resta um pavão? Que pena.)
    Beijos,
    Outro Ente.

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    1. Boa tarde, Outro Ente
      Infelizmente correu mal para as últimas pavoas (não as que já viu), porque chocaram perto da ribeira: uma desapareceu sem rasto (nem dos ovos); a outra tinha pelo menos quatro, mas agora só há um. Quando não se conseguem pôr em local seguro morrem quase todos.
      Os outros já começam a ter crista de penas no alto da cabeça, e estão óptimos.
      Há dias tristes.
      Beijos,
      Teresa

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  2. "Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
    calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
    Sequências de convergências e divergências,
    ordem e dispersões, transparência de estruturas,
    pausas de areia e de água, fábulas minúsculas."
    António Ramos Rosa

    Querida Teresa, nem sempre há notícias felizes na quinta - a sua quinta que é também um microcosmos do mundo. No entanto, a Natureza tem o poder mágico da regeneração.

    Um beijinho :)

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    1. (...)
      "Geometria que respira errante e ritmada,
      varandas verdes, direcções de primavera,
      ramos em que se regressa ao espaço azul,
      curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
      composta pelo vento em sinuosas palmas."
      (...)
      António Ramos Rosa

      Um obrigada, querida Miss Smile.

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  3. Vida e morte no campo. Também por aqui tenho recolhido cadáveres de pardais.

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    1. É verdade luisa, felizmente muito mais vida que morte; mas para quem aqui vive é a nu e cru, e essa parte, às vezes, torna-se difícil.

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  4. Gostei tanto do teu portão fechado! É lindo, também, o lado B da vida. Triste, mas lindo.
    Gostei particularmente da erva daninha encostada ao cacto.
    Um beijo, Teresa.

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    1. Obrigada Susana, eu sei que tem a sua poesia [de "inspiração metalomecânica" :)], um corredor que se afunila, sem retrocesso, e que o olhar preferia não ver. Mas há um foco que indica, está aqui. Concordo contigo, que o lado B tem a sua beleza, e por isso o quis mostrar.
      E é inteiramente verdade que por trás dos portões fechados crescem ervas encostadas aos cactos.

      Um beijo.

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