Atalhos de Campo


10.7.15

Porta de embarque

Sento-me à secretária, e começo a escrever. Faço-o directamente no computador, sabes, gosto de teclas. Como tu, gostava de saber tocar piano. Se soubesse tocar piano, hoje não escreveria nada, tocaria. As janelas estão abertas no escritório, estou quase à altura dos pinheiros; ouço-lhes o marulhar de vaga, os rebentos novos e verdes oscilando, contra o céu. Cada árvore exprime o vento da sua maneira muito própria, e um cheiro a maresia vem morrer-me na ponta dos dedos. Hoje chegou uma carta por Air mail, dentro daqueles envelopes azuis, quase transparentes, emoldurados por riscas bicolores em diagonal, uma carta muito antiga. Incluía um mapa-mundi e uma passagem de avião. Sei alguma coisa desses mapas, que se inscrevem nas palmas das mãos com rotas, como linhas de vida. Há muitos anos, um carteiro entrou no colégio e estendeu-me um envelope desses que tinha escrito por fora para entregar à menina mais bonita que encontrar; eu não queria, mas ele insistiu, eu via os soldados na televisão, a desejarem bom Natal às famílias, e um Ano Próspero, e alguns choravam, eram muito novos, tinham saudades de casa, alguns já tinham morrido, ou morreram a seguir. Por isso aquele envelope causou-me um horror de morte, comecei a ler e não consegui, guardei-o e nunca mais o abri. Naquele dia teria tocado piano, se soubesse. Quando abri o envelope, aquele que chegou hoje, lembrei-me que te encontrei num livro que li há um ano, e fui buscá-lo. Foi um livro que me perturbou, que adorei ler, e que hoje tive dificuldade em encontrar. Sem nenhuma lógica, ou talvez não, tinha-o guardado entre Calvino, Modiano e Munro. Comecei a reler o livro e a marcá-lo com o teu convite; encontrei nele outras marcas, todas elas importantes. Sem haver lido uma única palavra tua dizias-me tudo, dizias-me que reflectiras, que caminharas, que sentiras, e que tinha chegado o momento. E que esse momento não viera de maneira impulsiva, leviana, tinha sido conquistado a pulso nos dias e nos anos. Referes o local, o dia e a hora a que eu sei que embarcarás convicto, mas não sem receios(como quando se entra num avião), e eu lá estarei na porta de embarque para me despedir de ti, e pedir-te que não te esqueças de me escrever.


Suponho que, no entanto, ao encaminharmo-nos para esse mesmo lugar, os nossos passos juntos(ecoando descompassados porque já são quatro pés que caminham), pensamos acima de tudo um no outro, pelo menos eu penso. Creio que, no entanto, não nos trocaríamos por nada do cobiçado mundo, ainda não exigimos um do outro a mútua abolição ou aniquilamento, do que cada um era e daquele por quem nos apaixonámos, limitámo-nos a mudar de estado, e agora isso já não parece assim tão grave ou incalculável: sou capaz de dizer:«fomos» ou «vamos comprar um piano» ou «vamos ter um filho» ou «temos um gato».
Javier Marías


Ao Pedro e à Neuza

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