Atalhos de Campo


9.7.15

Poema dos passarinhos antigos

Era um par de jovens. Ela e ele. Ambos jovens.
Alegremente cantavam as canções dos jovens
e tinham orgulho em dançar as danças ruidosas dos jovens.
Como jovens que eram riam-se das pessoas antigas
por já não serem jovens,
por não saberem dançar as suas danças de jovens,
por não saberem cantar as suas canções de jovens.
Mas num dia em que os seus olhos se encontraram de certo modo,
sentiram nos seus corpos um estremecimento antigo.
As células antigas dos seus corpos jovens
estremeceram.
As palavras de amor saíram-lhes da boca
pressurosas e múltiplas,
como as pequenas bolas de sabão
quando num tubo estreito são sopradas.
E juntamente com elas saíram passarinhos leves,
passarinhos antigos,
tão leves como as bolas de sabão,
e os passarinhos iam debicar nos lábios de ambos,
e os lábios intumesciam-se, vermelhos e macios como polpas,
e os passarinhos roçavam a penugem do peito pelas pálpebras deles
com os bicos alisando as sobrancelhas,
e aninhavam-se entre a carne e a roupa
batendo as asas num saber antigo.
Quando acordaram e quiseram sacudir o pó do tempo
ouviram o riso dos jovens que se riam das pessoas antigas,
e alegremente cantavam as suas canções de jovens
e tinham orgulho em dançar as danças ruidosas dos jovens.

António Gedeão/ Poema dos passarinhos antigos

Sem comentários:

Enviar um comentário