Atalhos de Campo


16.7.15

o portão está aberto






















Eu sabia que viria hoje, quando é assim o portão não fica trancado, portanto não estranhei quando ouvi um tractor a avançar caminho fora, entre os choupos e nuvens de pó, com os cães ao lado, a ladrar e a tentar morder as rodas. Levantei a cabeça das roseiras, para responder ao aceno do Sr. José Maria na curva junto ao jardim, enquanto berrava pela Espiga, que é sempre a pior, e costuma morder, não só em pneus. O Sr. José Maria não precisa de mim para se orientar, continua o seu caminho rodeado por cães, passa pela casa, pela vereda de amoreiras, e antes da pequena ponte sobre a vala, pára para abrir a porteira da cerca onde vai gadanhar, e começa imediatamente no seu vaivém, atento ao trabalho. Há uma fiada de pinheiros mansos ao longo da vala, talvez uns seis ou sete e depois começam os freixos, alguns deles frondosos, com muitos anos. Há também uma pequena mata de pinheiros à esquerda, e uma ribeira, que costuma secar no Verão, ladeada por caniçais e urtigas, junto ao muro alto que limita a quinta e que segue até ao tanque, à nora, e à antiga casa do hortelão. Em todas estas árvores abundam pássaros, rouxinóis que cantam maravilhosamente nas noites de Primavera, pintassilgos, cucos, rolas, corvos, pardais, piscos, pegas. Tenho reparado que grande parte da vida dos pássaros é passada entre os ninhos e a procura de alimentos e de água, sobretudo nesta altura do ano. Os pintassilgos são pássaros muito inteligentes, e, tal com as pessoas, tentam arranjar local para procriar bem perto da fonte de alimento, portanto um campo de cardos é para eles a visão da abundância, uma vez que se alimentam das suas flores. E um campo de cardos não serve para nada, os animais não pastam, nada lhe sobrevive, nada, a não ser esse ser maravilhoso, pequeno e multicor, que consegue transformar cardos em melodia e penas, vermelhas, amarelas, brancas, cinzentas. Os pinheiros e os freixos estão nesta altura carregados de ninhos de pintassilgos, que não precisam de voar muito para terem o que procuram, e um grupo de pintassilgos a voar sobre um campo de cardos é algo que se aproxima de uma imagem do paraíso. Enquanto penso nestas coisas, o Sr. José Maria, vai gadanhando o campo de cardos. Traz as mãos protegidas por luvas, um chapéu de palha, e óculos escuros. Em volta do tractor dezenas de andorinhas aproveitam para apanhar no ar os insectos que se espantam, e os pintassilgos só voltam ao fim da tarde, para apanharem as sementes que ainda sobram. Nunca pensei que um campo de cardos pudesse ser tão bonito.














4 comentários:

  1. Dá vontade de te roubar a chave do blogue, fazer uma cópia e entrar por esse portão de vez em quando, ficar aí a ver, a cheirar, a ouvir, a viver, de bom que é vir aqui.
    Adorei a vaquinha. Acho as vacas cómicas e por isso giras. Tenho a impressão de que não sabem que existem, existindo em tamanho tão grande.
    Um beijinho, Teresa, e obrigada pelo safari. (está bem, não será propriamente um safari, mas quase pareceu, pronto)

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    1. Querida Susana, a hora é adiantada, mas gosto do silêncio, e de ficar para aqui a pensar antes de dormir, só com umas luzes que piscam aqui e ali, mas não dizem nada. E o que me ocorre dizer-te hoje, é que eu fotografei a vaquinha que se chama Horta, e que é muito curiosa, porque me senti a perguntar o mesmo que ela: agora que destruíram o mundo, o que é que eu lucro?
      Apetece-me tanto deixar o portão aberto, mas tenho que ter um filtro, porque a lei da natureza (seja ela qual for), é altamente cruel.

      Um beijinho Susana, nem sabes como eu te percebo.

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  2. O portão está aberto e o poema está completo. Cardos e pintassilgos. Andorinhas e insetos.
    Aprendi mais umas coisinhas sobre o campo. Tão bom :)

    Um beijinho e boa noite :)

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    1. Miss Smile, atrevo-me a substituir campo por mundo, mas sei que já está a sorrir...

      Boa noite, se vir por aí um sorriso, é meu.

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