Atalhos de Campo


7.7.15

nem todas as aves são pássaros

A janela da sala de jantar abre-se para a vereda de amoreiras, para um relvado, e para uma pequena horta. Um tufo de bambus que oscila ao vento, aparece e desaparece na moldura da janela, subtil como num quadro japonês. Vivo com dois pardais. Suponho que terão um mês de vida, mas já voam. Penas castanhas substituíram os eixos centrais(raque)em erupção na pele nua dos primeiros dias, e foram-se abrindo como pequenos leques até cobrirem todo o corpo com sedosas tetrizes, enquanto nas asas, as cada vez mais longas rémiges, os fazem voar até ao alto do tecto abobadado que percorrem em círculos vertiginosos. Como adolescentes, espantam-se com a cauda a crescer todos os dias, aborrecem-se quando a levam às costas, quando esbarra em todo o lado, mas vão aprendendo a usá-la com perícia de acrobata, as rectrizes são um skate do ar, inclinam-se, levantam-se, flectem para a direita e para a esquerda até baixarem na aterragem com precisão, nos candeeiros, no espelho, e no quadro em frente. Quando os encontrei, um deles havia caído do ninho, feito na palmeira secular, o outro do telhado do alpendre. Devem ter uma semana de diferença, mas o mais novo foi imitando o mais velho, e praticamente já fazem as mesmas coisas. Tenho espaçado as refeições e aumentado a quantidade. Há dois dias que coloco sementes de mistura para canários(painço, alpista, linhaça, alface, papoila azul) camufladas por entre as rosas secas da taça que está junto à janela, pelas quais se interessaram. Agora acordo mais cedo. Solto-os. As pétalas de rosa voam sob as asas, apanham uma vermelha, e fogem com ela no bico, pousam na moldura do quadro, voltam à taça onde estão as rosas do Verão passado, olham de lado para as pequenas sementes, experimentam comê-las, começam a usar o bico com precisão cirúrgica, desembaraçando-se das cascas. Mas as sementes dão muito trabalho, a pequena colza escapa-se e rebola, esconde-se por baixo da taça, ah! agora apanhei-te de novo, vou tentar, consegui!, que divertido é viver. Se apareço voam na minha direcção, pousam-me na mão, no ombro, já têm fome de novo. Mas papas,... outra vez! Esta está muito grossa, não quero mais. E vira a cabeça, avalia a distância, dá um voo até ao abat-jour, limpa o bico, endireita as penas, adormece. E que fixe é tomar banho no bebedouro da água, anda também, deixa-me, agora sou eu, olha dei um mergulho, que bom! Olha ali uma piscina! Bora! Ela diz que podemos, chapinha com o dedo, estás a ver, é porque podemos; e a digestão, já fizeste a digestão? E ao cair da noite estão exaustos. São horas de regressar à gaiola. Só mais um bocadinho!, pedincham, e voam para cima do armário. Agarro-os, fogem-me por entre os dedos, depois lá consigo enfiá-los na gaiola. A porta desliza, fechando com um som metálico; apago a luz. Em breve adormecerão. Aqui em casa são eles os exóticos, como quando chegaram ao Brasil, em 1903, os primeiros pardais provenientes de Portugal.  

2 comentários:

  1. Querida Teresa, gostei tanto do seu texto, mas tanto. Imaginei-me a espreitar para a sala de jantar, com o nariz colado à moldura da janela, deliciada com as peripécias dos "manos acrobatas". E a Teresa já os conhece tão bem que os põe a falar! É também assim que imagino que falem entre si, num entusiasmo inflamado pela vida.

    Um beijinho

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    1. Querida Miss Smile, gostei tanto que tivesse gostado!
      De facto, eles partilham tudo como dois irmãos, e não imagina como fica a sala...

      Um grande beijinho

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