Atalhos de Campo


6.7.15

memória. curta # 8

Combinámos que não pagaria as consultas. Tinha muitos animais em casa, e outros tantos protegidos; lembro-me da sua singularidade e da sua sofisticação, por um lado, e de como se relacionava com os outros, sem elitismos. Ao longo dos anos fui-me apercebendo da sua sensibilidade para com o sofrimento, e da sua repulsa pela arrogância. Ajudava muita gente. A certa altura começou a trazer-me livros, muito bem embrulhados, sobre temas de que falávamos durante as consultas, romances, ensaios, poesia. Devia reparar em como eu ficava feliz por recebê-los, encantada com o aroma dos livros novos, ao desembaraçar-me do papel de embrulho, folheando-os à sua frente. Sem motivo especial, ou pelo menos para mim, no fim de algumas consultas, tratamentos, ou cirurgias, retirava mais um volume do saco que trazia a tiracolo, e colocava-o delicadamente sobre a secretária. Embora adorasse os presentes, não queria que o fizesse, porque me sobrava a sensação de não ter apoiado o suficiente. Agora, que já passaram alguns anos, não fiquei com a certeza de ela ter valorizado tanto a minha dedicação e o meu trabalho(tantas vezes fora de horas), quanto eu fui valorizando as conversas que tivemos, por causa daqueles livros que ficaram, e que, ao serem lidos ao longo do tempo, mantiveram viva a cumplicidade e a memória desses dias. 

2 comentários:

  1. Querida Teresa Borges do Canto,
    Certamente, se não tivesse valorizado não lhe teria procurado agradar. Nem sempre igual implica a mesma medida.
    Boa noite,
    Outro Ente.

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    1. Boa noite, o que diz faz sentido, mas aqui o papel desempenhado pelo objecto é importante; os actos diluem-se no tempo, a vida corre veloz, os livros ficam; e com eles, uma conversa, um sorriso, uma vitória; os animais sucedem-se, na nossa vida cabem vários; talvez a memória seja nesse caso, salvou-me o/a...ambas oferecemos, mas só uma de nós deixou uma prova. Quando morre o último animal onde tocámos, acabou-se a prova, e aí morremos também com ele, a memória ficará ligada a ele, não a nós. É claro que isto só tem importância enquanto formos vivos. Um dia aqueles livros voltarão a ser apenas livros.
      Teresa

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