Atalhos de Campo


30.7.15

Júlia

Encontrei a minha avó sentada no seu canto como era costume, mas achei-a entristecida. Avó, sinto-a tristonha, parece-me que isso tem a ver com a ausência da Júlia. A minha avó era dada a lágrimas, mas desta vez não chorou quando disse que a Júlia fazia muita falta, mas filha, roubava tanto, agora sobra tudo em quantidade, até detergente da roupa. E desatámos a rir. Conhecendo a Júlia, tudo era possível porque a Júlia não se regia pelos mesmos códigos das outras pessoas. Provavelmente acharia mais do que justo levar tudo o que pudesse para distribuir na Buraca, onde vivia. E era um facto que a casa sem ela estava mais triste. Faltavam-lhe as gargalhadas sonoras da Júlia, a volumetria da Júlia, o colorido da Júlia. A Júlia era a nossa Ginga, não só porque gingava, mas porque era a nossa rainha. Com a Júlia não havia pressas, refilava se achava que tinha razão, ia fazendo tudo pelos mínimos, e, enquanto a minha avó descansava, ela também descansava. Foram várias as vezes em que a encontrei sentada na escada que ia para o sótão, de cabeça encostada à parede, cochilando durante as horas de trabalho. Toda a gente reparava naquela mulher jovem, de formas generosas, que passeava um cocker spaniel enquanto esperava pela carrinha do colégio, mesmo à esquina do jardim. O meu filho saía a arrastar o casaco e a pasta, a cadela pulava de contentamento, e o trio dirigia-se vagarosamente para casa, onde estava um lanche à espera. E a Júlia cumpria o seu papel na perfeição, com paciência e ternura para com o cão, a minha avó, e o meu filho, quase até à hora de eu o ir buscar. Um dia apareceu transtornada. Vi matar um homem ontem, dizia, um dos meus vizinhos com sete filhos roubou a televisão a outro, que morava ao lado, e quando o outro soube matou-o com uma navalha, ali, mesmo à frente das crianças, e a Júlia chorava, e talvez nesse dia não tivesse feito grande coisa, mas não faltou, porque era frequente trazer desgostos da Buraca, que era um sítio propício a acontecerem desgostos. As quintas-feiras eram dias de moamba a pedido da Júlia, que tratava de comprar os ingredientes, o óleo de palma, os quiabos, a abóbora, e que depois de deixar a cozinha perfumada com a sua iguaria exótica e dourada, se sentava calmamente a saborear a mistura que fazia no prato, com a farinha de mandioca. Num dia em que consegui sair mais cedo, e me sentei um bocadinho a conversar com a minha avó, reparei que o meu filho, na altura com quatro anos, segredava qualquer coisa ao ouvido da Júlia. Passado um bocado apareceram os dois muito felizes. O que é que o menino queria, perguntei-lhe, enquanto ele arrumava os brinquedos. Ela a rir-se disse-me baixinho: o menino disse-me que já tinha visto o rabo da mãe, da bisavó, do pai, dos avós, dos outros meninos, e que só faltava o rabo da Júlia, e eu fui à casa-de-banho mostrar-lhe o meu rabo. E o meu filho sobreviveu ao rabo da Júlia até entrar no segundo ciclo; penso mesmo que isso o salvou.  

8 comentários:

  1. que bom... que vontade de ser Júlia :)

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    1. muito obrigada, ana, a júlia havia de gostar.
      Para esses lados acorda-se com um sorriso radioso.
      :)

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  2. Ó minha querida Teresa Borges do Canto,
    Por esse desfecho é que eu não esperava.
    Bom dia,
    Outro Ente.

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  3. A Júlia era assim, querido Ente, uma alma um bocadinho parecida com a sua, desconcertante; por isso nos invadia o coração.

    Tenha um dia de acordo com a sua visão de ontem.

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  4. Respostas
    1. "Que a palavra parede não seja símbolo
      de obstáculos à liberdade
      nem de desejos reprimidos
      nem de proibições na infância
      etc. (essas coisas que acham
      os reveladores de arcanos mentais)
      Não."
      Manoel de Barros/ O guardador de águas

      Obrigada G., sempre.

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  5. Não querendo retirar méritos, também acredito que foi o rabo da Júlia que fez a diferença :)

    Que história deliciosa, Teresa, e tão bem contada!

    Um beijinho

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    1. Era piramidal, parafraseando Federico Fellini em "A cidade das mulheres", e, embora não parecendo, esta história tem uma moral: "às vezes por um bom rabo se perde a cabeça"(anedota brasileira).

      Obrigada, Miss Smile, a propósito de bem contado, estava a elogiar-lhe a escrita, e disse o nome do seu blogue, que foi de imediato entendido como Notas de Charme...corrigi, concordando que era também verdade. :)
      Um beijinho, e bom resto de dia.

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