Atalhos de Campo


24.7.15

Emília

Eu chamava-lhe Milocas. A Milocas não vivia connosco, mas passava algumas férias connosco. Era uma mulher jovem, lembro-me que era tão bonita, que usava um lenço colorido na cabeça atado com dois nós muito apertados na nuca, mas por vezes exibia as belas tranças e riscas marcadas no couro cabeludo, como uma escultura perfeita em madeira exótica. Passava a nossa roupa a ferro, ajudava a minha mãe a dar-nos banho, preparava-nos o lanche e fazia-nos companhia, vigiando-nos as brincadeiras. Ela faz parte do meu mundo encantado da infância feliz em África, a candura dos seus abraços ainda me respira na pele, as suas mãos ainda me limpam algumas lágrimas. Acompanhava aventuras e caçadas às borboletas gigantes que guardávamos entre as redes mosquiteiras e os vidros das janelas do quarto de brincar, ia connosco ver as queimadas ao pôr-do-sol, sentada atrás ao nosso lado nos bancos corridos do Land Rover de caixa aberta, indicando-nos os répteis, roedores e pássaros que fugiam por entre nuvens de cinza, e nas regas da vastidão dos campos altos e verdes de cana-de-açúcar, amparava-nos quando o meu pai acelerava para conseguir apanhar o jacto de água dos aspersores que nos molhava num chuveiro de gritos e suspiros frescos, enquanto no regresso nos descascava as canas, e nos ensinava como se comia aquele chupa-chupa delicioso, colhido mesmo ali, sem corantes nem conservantes. Era ao colo dela que os mais novos adormeciam, era ela que muitas vezes espreitava o mais pequenino no berço, vigiando-lhe o sono, era ela que fazia de contas que comíamos tudo, que filtrava alguns disparates, que avisava se estávamos a pisar o risco, que nos fazia curativos aos joelhos esfolados, sempre pintalgados de mercúrio-cromo. Milocas, põe-me a mim também, e a Milocas fazia as nossas delícias, marcando a todos com o encarnado do sonho de também possuir uma ferida. Sempre calma, sempre a sorrir, chegava a cheirar a manga madura e a sol, partia cansada num trilho de volta, marcado no capim. Milocas, ensina-me landim, como é que se diz cão em landim, como é a tua casa, tens marido, filhos, e ela assobiava em xilandi, e ria-se mostrando os dentes muito brancos, que lavava nos tempos livres com uma escova de raiz de mulala. Milocas, já mataste alguma cobra? E a Milocas um dia provou que sim, perante um grito petrificado da minha mãe, mal pousáramos as malas ao chegar a uma casa de praia perdida entre uma floresta e o mar, quando certeira agarrou numa pedra junto à chaminé e esmagou a cabeça de uma cobra, que ali ficou colada ao chão, a cobra que se empinara mesmo atrás do meu irmão mais novo, com dois anos na altura, e que nos deixou a todos a tremer, com medo de ali dormir. Não sei se ela dormiu nessa noite, ou se ficou de vela ao nosso sono, mas passou a ser a nossa heroína, e de manhã mal abrimos a porta e olhámos para a floresta, tínhamos várias fêmeas de macaco a espreitar-nos com os filhos ao colo, curiosas com a nossa presença, e nós adorámos aquilo, e saímos para a praia pela mão da Emília, agora seguros contra qualquer perigo.
  
Emília com o Filipe (1965)

8 comentários:

  1. Querida Teresa, gostei tanto da sua história. E gostei tanto de conhecer a doce e guerreira Milocas, a cheirar a manga madura e a sol!

    “Khanimambo” por esta bonita e nostálgica viagem :)

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    1. Querida Miss Smile,

      Que belo obrigada, com sumo de sol e manga. :)

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  2. Acordar e ver várias fêmeas de macaco com as suas crias havia de me fazer chorar de alegria.

    Maravilhosa, a Milocas. Maravilhosa, a história.

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    1. (...)
      "Certa manhã, entre as colunas
      de fogo que de vez em quando
      se levantavam no terror das esquinas,
      apareceu o rosto doce de António
      Fotografei-o com minha câmera descartável
      E essa imagem desfocada é a pagela
      que trago dobrada em meu bolso até hoje

      Aqueles foram meus pleitos literários
      entre o mar e a cidade
      E, como disse o santo da fotografia,
      na verdade fui feliz."

      Matilde Campilho/ Tenho planos para uma confissão

      Susana, é isso mesmo, a alegria também faz chorar.

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  3. Mais que viver recordar é voltar a um tempo que nos marcou.
    A "Milocas" faz-nos lembrar aquela "mãe preta" que marcou muitos dos adultos de hoje que tiveram a Graça de VIVER uma meninice livre e em grandes espaços que nos ensinaram a viver uma vida muot diferente desta viva pequenina que se vive hoje.
    Que continues a guardar todas as recordações, as boas e também as más, que vivestes e foram suficiente importantes para ti que as tens tão presentes.
    Um beijo do tio.

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    1. "Quarta nota para
      a manhã infinita:

      Afinal o grande amor
      Não garante nada mais
      Do que as 12 graças
      Desdobradas pelos
      Corredores do mundo
      Agora isso é mais
      Do que suficiente
      E apesar dos bofetões
      Do tempo invertido
      Apesar das visitas
      Breves do pavor
      A beleza é tudo
      O que permanece"
      Matilde Campilho/ Avarandado

      Um beijo, tio.

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  4. A "minha" chamava-se " Augusta. Era branca mas em nada se destrinçava nos cuidados, no carinho, na bravura perante cobras.
    Mulheres cuidadoras dos meninos dos outros.

    Boa noite, Teresa. :)

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    1. Augusto/a, diz o Dicionário dos Nomes Próprios, que é sagrado/a, consagrado/a, sublime, elevado/a.
      Ruas Augustas traçadas nas nossas vidas.

      Bom fim-de-semana, Maria. :)

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