Atalhos de Campo


24.7.15

ao mexer na cor das palavras

Jantávamos. A certa altura disse-lhe que estava a pensar escrever sobre as mulheres negras da minha vida. Acusou-me inesperadamente de racismo, que não devia fazer essa distinção pela cor da pele, que nigger é depreciativo, é epíteto de escravo. Eu defendia-me assegurando que para mim negro é a raça negra, não se diz raça preta, e que isso não é descriminação, é uma realidade. Depois disse-lhe que essas mulheres tinham nomes, que umas eram cabo-verdianas, outras angolanas, outras moçambicanas, mas que, acima de tudo, tinham sido todas extraordinárias, e que eu sempre as tinha tratado pelo nome. 

2 comentários:

  1. Teresa, não penso que sejam as palavras que produzem o racismo, assim como não acho que a ideia do politicamente correto altere preconceitos, quando eles existem. Se a identidade racial de uma determinada pessoa é importante para qualificar a sua individualidade, então, é importante que esta seja referida. Mas quando é a raça a sobrepor-se ao indivíduo, sem abarcar a sua identidade como pessoa, isso sim, é racismo. E não deixa de o ser, mesmo quando são utilizadas designações politicamente corretas. O problema não está na escolha das palavras, mas no foco do olhar.

    Há um texto que recebi por e-mail há uns tempos que reza o seguinte:

    Um menino negro entra num mercado.
    Um homem branco diz: “Não permito pessoas de cor aqui.”
    O menino negro diz: “Eu nasci preto.
    Quando começo a congelar, eu sou preto.
    Quando estou doente, eu sou negro.
    Quando eu estiver morto, estarei negro.
    Quando o senhor nasce, é rosa.
    Quando começa a congelar, fica azul.
    Quando se sente envergonhado, fica vermelho.
    Quando morre, fica roxo…
    E eu é que sou pessoa de cor?

    Querida Teresa, eu teria muito gosto em ler as suas histórias sobre essas extraordinárias mulheres negras.

    Um beijinho :)

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    1. Miss Smile, como sempre gostei muito e penso que tem toda a razão. Inclusivamente a palavra negro, tal como preto, não é consensual em todos os países e varia mesmo dentro da comunidade africana. Grande parte dos nossos comportamentos em relação a isso são miméticos, tendo a ver com a educação que recebemos, e sobre a qual muitas vezes não pensámos mais, e no medo de perdermos o nosso multicolorido branco. " Aquele que odeia ou despreza o sangue estranho, ainda não é um indivíduo, mas uma espécie de protoplasma humano" - a frase é de Nietzsche. Reconheço que este é um tema de difícil abordagem e que pode facilmente levar a mal-entendidos, como o que levantou polémica entre Spike Lee e Tarantino, durante tantos anos, a propósito do uso repetido da palavra nigger, em mais do que um filme deste último. De qualquer forma o foco do meu olhar foi exactamente para algumas mulheres extraordinárias que conheci, e que tinham em comum uma cor de pele diferente da minha.

      O texto que enviou é magnífico. Muito obrigada por acrescentar algo tão importante sobre a forma de ver este assunto, de maneira tão sensata e clara.

      Um beijinho :)

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