Atalhos de Campo


1.7.15

a pílula azul

Quando o telefone tocou, eu ainda estava em consulta. Atendi para o ouvir dizer baixinho, telefonaram-me agora da farmácia, a dizer que não lhe vendiam o medicamento, mesmo com receita médica, porque ele é cardíaco, mas lá os convenci, disse que era um disparate, então se era uma receita veterinária era para dar a um cão, claro, que lhe aviassem a receita que eu me responsabilizava. E o Sr.O. um velho obeso, encarniçado pelo vinho, e trôpego, pegou no saco de papel e na receita, deu um bom-dia contrariado, e voltou para a quinta na sua motoreta roufenha, com a missão cumprida. O meu amigo pegou na caixa, e, enquanto o ouvia vociferar afogueado, como era possível duvidarem dele, um homem honesto, agora a tomar aquelas coisas, dirigiu-se ao canil levando consigo a fatia de queijo, tal como eu recomendara. De lá voltou-me a ligar para dizer que já tinha conseguido dar o comprimido, mas que esperara meia hora e não tinha acontecido nada. 

O Chow-Chow é um cão milenar, muito reservado, e não gosta nada de intromissões na sua vida íntima, de modo que o aconselhei a deixar o casal entregue ao seu ritual e à sua privacidade. Tinha lido um artigo científico de uma universidade norte-americana em que se experimentara, com sucesso, o uso de citrato de sildenafila em casos de dificuldade na cobrição em cães, e quando ele se queixou que não conseguia obter ninhadas, referi-me ao estudo recente, e que embora não tivesse experiência no uso da droga, achava que ele não perdia nada em tentar. É claro que o assunto deu direito a gargalhada, a famosa pílula azul estava ainda no início da sua comercialização, as anedotas eram mais que muitas, mas...num cão...??!! 

Passou mais de um mês até voltar saber notícias. Parecia que não tinha resultado, a cadela estava na mesma, sem sinais evidentes de gravidez, mas entretanto havia novidades hilariantes sobre os comprimidos. Ao contar a história ao sócio, entre risos e espantos, o meu amigo foi indagado sobre o destino dos restantes comprimidos. Estão lá para casa, na cozinha. E... ainda precisas deles? - perguntou-lhe o sócio, é que podias dispensar-me dois, sabes, isto ainda é um pouco tabu, eu gostava de experimentar mas não sei como arranjar, assim, sem ter que abordar o assunto, percebes, eu pago-te isso, que ainda é caro,... e ... E dois comprimidos foram parar à gaveta de cima da secretária do escritório da empresa, oferecidos com grande prazer, e por lá andaram, discretamente espiados, até que um dia... tinham desaparecido. Sobrava um, no armário da cozinha, entre as chávenas, guardado com o despudor de uma aspirina. 

- Então a Cristina, está boa? - perguntei-lhe no fim do telefonema, quando radiante me contou que tinham nascido três lindos cachorros na véspera, sem nunca ter dado conta da gravidez da cadela. Tens que vir vê-los num destes fins-de-semana próximos. Ah!, nem queiras saber a complicação que tem dado aquele comprimido. As coisas com a Cristina estão muito tremidas, desde que ela encontrou o Viagra junto às chávenas do pequeno-almoço, numa das vezes que lá dormiu em casa, e agora se recusa a acreditar que foi para o cão. Já lhe disse que te telefone a confirmar, mas ela acha que me vais defender, que me conheces muito antes dela, que nós é que somos amigos. E desligou, infeliz, enquanto eu para o animar lhe dizia que tinha bom remédio, era tomá-lo em segredo, e fazer-lhe uma surpresa... quem sabe uma gravidez trigemelar lhe tire as suspeitas, disse-lhe a rir. 

Aproveitei um almoço de amigos para recordar toda a sequência da história, enquanto a Cristina ouvia tudo, de mão dada com o meu amigo. E ainda não sabes o melhor, riu-se ele, telefonaram da farmácia um dia destes para a minha mãe, imagina, a dizer que tinha lá uma dívida de Viagra para pagar, e eu que já nem me lembrava que tinha mandado pôr aquilo na conta! Ela ficou furiosa e quase me insultou ao telefone, agora andas a tomar Viagra e eu é que pago, e a vergonha, francamente. Mas parece que se apressou a liquidar a dívida, porque quando lá fui pagar já tinha sido pago.

Quanto a mim, nunca mais receitei Viagra a nenhum cão, e percebe-se porquê:nunca mais teria uma história tão boa como esta para contar, e para além de tudo, aqui para nós que ninguém nos ouve, não fiquei com a certeza de ter resultado.

4 comentários:

  1. Uma história hilariante que já me pôs a rir! Haverá certamente muita gente "honesta" a pedir ao veterinário que passe a receita do comprimido azul para o seu "Chow-Chow" :)

    Um beijinho

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    1. De facto pode-se prestar, mas nunca me aconteceu. Aconteceu-me melhor, um dia uma senhora entrou-me pela clínica e disse-me:
      - Já estive ali no posto, mas está muita gente à minha frente, importa-se de me auscultar?

      É claro que lhe disse que tivesse paciência, e mesmo que lhe desse um ataque de taquicardia, devia aguardar a sua vez, no posto médico...

      Um beijinho

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  2. Querida Teresa Borges do Canto,
    Depois de me rir com esta história, só me ocorre "pobre homem ".
    Boa noite,
    Outro Ente.

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    1. Um pobre querido, tem razão, mas tem tão bom feitio que nem deu conta...
      Boa noite,
      Teresa.

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