Atalhos de Campo


31.7.15

Papoilas em Julho

Pequenas papoilas, pequenas chamas do inferno,
Vocês não fazem mal?

You flicker. I cannot touch you.
I put my hands among the flames. Nothing burns.

E fico exausta ao olhar-vos
A tremeluzir assim, pregueadas e de um vermelho vivo, como a 
  pele de uma boca.

A mouth just bloodied.
Little bloody skirts!

Há fumos que não posso tocar.
Onde está o vosso ópio, essas cápsulas que dão náuseas?

If I could bleed, or sleep!
If my mouth could marry a hurt like that!

Ou se os vossos venenos pudessem penetrar em mim, nesta
   cápsula de vidro,
Para me entorpecerem e aquietarem.

But colourless. Colourless.

Sylvia Plath/ Popppies in July 

Blow-up






































































30.7.15

Quem foi que me disse que as zínias atraem borboletas?











































Júlia

Encontrei a minha avó sentada no seu canto como era costume, mas achei-a entristecida. Avó, sinto-a tristonha, parece-me que isso tem a ver com a ausência da Júlia. A minha avó era dada a lágrimas, mas desta vez não chorou quando disse que a Júlia fazia muita falta, mas filha, roubava tanto, agora sobra tudo em quantidade, até detergente da roupa. E desatámos a rir. Conhecendo a Júlia, tudo era possível porque a Júlia não se regia pelos mesmos códigos das outras pessoas. Provavelmente acharia mais do que justo levar tudo o que pudesse para distribuir na Buraca, onde vivia. E era um facto que a casa sem ela estava mais triste. Faltavam-lhe as gargalhadas sonoras da Júlia, a volumetria da Júlia, o colorido da Júlia. A Júlia era a nossa Ginga, não só porque gingava, mas porque era a nossa rainha. Com a Júlia não havia pressas, refilava se achava que tinha razão, ia fazendo tudo pelos mínimos, e, enquanto a minha avó descansava, ela também descansava. Foram várias as vezes em que a encontrei sentada na escada que ia para o sótão, de cabeça encostada à parede, cochilando durante as horas de trabalho. Toda a gente reparava naquela mulher jovem, de formas generosas, que passeava um cocker spaniel enquanto esperava pela carrinha do colégio, mesmo à esquina do jardim. O meu filho saía a arrastar o casaco e a pasta, a cadela pulava de contentamento, e o trio dirigia-se vagarosamente para casa, onde estava um lanche à espera. E a Júlia cumpria o seu papel na perfeição, com paciência e ternura para com o cão, a minha avó, e o meu filho, quase até à hora de eu o ir buscar. Um dia apareceu transtornada. Vi matar um homem ontem, dizia, um dos meus vizinhos com sete filhos roubou a televisão a outro, que morava ao lado, e quando o outro soube matou-o com uma navalha, ali, mesmo à frente das crianças, e a Júlia chorava, e talvez nesse dia não tivesse feito grande coisa, mas não faltou, porque era frequente trazer desgostos da Buraca, que era um sítio propício a acontecerem desgostos. As quintas-feiras eram dias de moamba a pedido da Júlia, que tratava de comprar os ingredientes, o óleo de palma, os quiabos, a abóbora, e que depois de deixar a cozinha perfumada com a sua iguaria exótica e dourada, se sentava calmamente a saborear a mistura que fazia no prato, com a farinha de mandioca. Num dia em que consegui sair mais cedo, e me sentei um bocadinho a conversar com a minha avó, reparei que o meu filho, na altura com quatro anos, segredava qualquer coisa ao ouvido da Júlia. Passado um bocado apareceram os dois muito felizes. O que é que o menino queria, perguntei-lhe, enquanto ele arrumava os brinquedos. Ela a rir-se disse-me baixinho: o menino disse-me que já tinha visto o rabo da mãe, da bisavó, do pai, dos avós, dos outros meninos, e que só faltava o rabo da Júlia, e eu fui à casa-de-banho mostrar-lhe o meu rabo. E o meu filho sobreviveu ao rabo da Júlia até entrar no segundo ciclo; penso mesmo que isso o salvou.  

29.7.15

o som das zínias
















































nem preto nem branco

Nem branco nem preto - nada
no mar flutuado, nenhum lugar
que não seja aquele aonde a cor 
chegará travestida de outro vidro



ou espelho, ou espinho, onde transluz
o teu rosto de seiva verdejante,
e o meu(vejamos), este céu
de estrelas mortas que já não te iluminam.

























Nenhuma cor, nenhuma qual só esta:

























não estou cá.

Pedro Tamen/Rua de Nenhures

28.7.15

o perfume do gorjeio

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

Manoel de Barros/ Gorjeios

Kronos com notas de pardal



video

27.7.15

Rosa

Chego a casa de Rosa enquanto arranco as guias da grama que invadiram o canteiro e se foram infiltrado por todo o lado, até desaparecerem por baixo do rebordo da piscina. Enfio os dedos na terra, procuro o segmento que se agarrou fortemente ao chão, sufocando a raiz das gazânias, penso como é possível, ainda há tão pouco tempo...de unhas sujas de terra, toco à campainha. Toco à tua campainha há trinta e três anos, Rosa, mas hoje, desculpa-me, acabei de jardinar, digo-lhe, e mostrando as mãos sujas, posso lavar as mãos? Rosa indica-me a casa de banho e acende-me a luz. A Rosa tem uma casa bonita, espaçosa, bem mobilada. Mora no segundo andar de um prédio no mesmo bairro que eu, mas a vista não é tão boa como a da janela da minha cozinha, de onde se consegue ver uma enorme seara que se perde pelo Tejo fora num mar de palha, dizia eu, a vista da sala comum da Rosa é para o espaço ajardinado entre os prédios, e para o prédio em frente. Há uma solenidade, uma arrumação, uma penumbra, uma tristeza monocromátiva no ambiente onde chego de mãos lavadas, que me faz pensar que desta vez lhe deveria ter levado um ramo de zínias, ficava ali tão bem, na mesa redonda entre os dois sofás em pele. O teu marido já veio, pergunto-lhe, e a Rosa diz-me que não, que a safra do bacalhau desta vez foi mais prolongada, que ele tem que aproveitar tudo, agora que pagam a casa, e com o menino doente. Rosa, tens uma casa tão bonita, gosto tanto de aqui vir, não te importas, vou sentar-me só um bocadinho, estou tão cansada, então conta-me lá o que se passa com o teu filhote...e a Rosa começa a contar-me sobre a doença do filho que ainda não tem um ano, e eu vou-me afundando no sofá que geme a cada movimento, e de repente verifico que as minhas mãos têm rugas, cortes que sangram, calos, cicatrizes, e olho para as suas, e lembro-me do que me disse um dia, quando eu me queixara que não conseguia cortar as unhas ao meu filho porque tinha medo, e ela dissera eu ajudo-a, eu corto com um corta-unhas ao meu, tem um corta-unhas, eu tinha mas tremia, e ela cortara as unhas do bebé na perfeição, e a partir daí partilhámos as nossas experiências de jovens mães, lembras-te Rosa, eu dava doze horas de explicações por dia, e tu ajudavas-me vindo duas vezes por semana, também tocavas à minha campainha Rosa, para meu alívio. Até que um dia fui eu que te pedi para te sentares, e te disse que não ia conseguir mais pagar-te, porque o meu marido ficara desempregado, e foi então que tu me disseste que não sabias ler, e me pediste se podias continuar a trabalhar, em troca de eu te ensinar a ler.       

26.7.15

«O meu reino é meu como um vestido que me serve.»

  O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade.
(...)
  É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol.
(...)
  E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.

Sophia de Mello Breyner Andresen/ Ingrina  
  

24.7.15

Emília

Eu chamava-lhe Milocas. A Milocas não vivia connosco, mas passava algumas férias connosco. Era uma mulher jovem, lembro-me que era tão bonita, que usava um lenço colorido na cabeça atado com dois nós muito apertados na nuca, mas por vezes exibia as belas tranças e riscas marcadas no couro cabeludo, como uma escultura perfeita em madeira exótica. Passava a nossa roupa a ferro, ajudava a minha mãe a dar-nos banho, preparava-nos o lanche e fazia-nos companhia, vigiando-nos as brincadeiras. Ela faz parte do meu mundo encantado da infância feliz em África, a candura dos seus abraços ainda me respira na pele, as suas mãos ainda me limpam algumas lágrimas. Acompanhava aventuras e caçadas às borboletas gigantes que guardávamos entre as redes mosquiteiras e os vidros das janelas do quarto de brincar, ia connosco ver as queimadas ao pôr-do-sol, sentada atrás ao nosso lado nos bancos corridos do Land Rover de caixa aberta, indicando-nos os répteis, roedores e pássaros que fugiam por entre nuvens de cinza, e nas regas da vastidão dos campos altos e verdes de cana-de-açúcar, amparava-nos quando o meu pai acelerava para conseguir apanhar o jacto de água dos aspersores que nos molhava num chuveiro de gritos e suspiros frescos, enquanto no regresso nos descascava as canas, e nos ensinava como se comia aquele chupa-chupa delicioso, colhido mesmo ali, sem corantes nem conservantes. Era ao colo dela que os mais novos adormeciam, era ela que muitas vezes espreitava o mais pequenino no berço, vigiando-lhe o sono, era ela que fazia de contas que comíamos tudo, que filtrava alguns disparates, que avisava se estávamos a pisar o risco, que nos fazia curativos aos joelhos esfolados, sempre pintalgados de mercúrio-cromo. Milocas, põe-me a mim também, e a Milocas fazia as nossas delícias, marcando a todos com o encarnado do sonho de também possuir uma ferida. Sempre calma, sempre a sorrir, chegava a cheirar a manga madura e a sol, partia cansada num trilho de volta, marcado no capim. Milocas, ensina-me landim, como é que se diz cão em landim, como é a tua casa, tens marido, filhos, e ela assobiava em xilandi, e ria-se mostrando os dentes muito brancos, que lavava nos tempos livres com uma escova de raiz de mulala. Milocas, já mataste alguma cobra? E a Milocas um dia provou que sim, perante um grito petrificado da minha mãe, mal pousáramos as malas ao chegar a uma casa de praia perdida entre uma floresta e o mar, quando certeira agarrou numa pedra junto à chaminé e esmagou a cabeça de uma cobra, que ali ficou colada ao chão, a cobra que se empinara mesmo atrás do meu irmão mais novo, com dois anos na altura, e que nos deixou a todos a tremer, com medo de ali dormir. Não sei se ela dormiu nessa noite, ou se ficou de vela ao nosso sono, mas passou a ser a nossa heroína, e de manhã mal abrimos a porta e olhámos para a floresta, tínhamos várias fêmeas de macaco a espreitar-nos com os filhos ao colo, curiosas com a nossa presença, e nós adorámos aquilo, e saímos para a praia pela mão da Emília, agora seguros contra qualquer perigo.
  
Emília com o Filipe (1965)

ao mexer na cor das palavras

Jantávamos. A certa altura disse-lhe que estava a pensar escrever sobre as mulheres negras da minha vida. Acusou-me inesperadamente de racismo, que não devia fazer essa distinção pela cor da pele, que nigger é depreciativo, é epíteto de escravo. Eu defendia-me assegurando que para mim negro é a raça negra, não se diz raça preta, e que isso não é descriminação, é uma realidade. Depois disse-lhe que essas mulheres tinham nomes, que umas eram cabo-verdianas, outras angolanas, outras moçambicanas, mas que, acima de tudo, tinham sido todas extraordinárias, e que eu sempre as tinha tratado pelo nome. 

23.7.15

22.7.15

definição de mãe adoptiva de pardal

taça em faiança(contendo uma papa morna), com um braço que termina numa mão sem dedos(e tilinta ao mexer), veiculada por ser animado de movimentos desarmoniosos, que não voa.    

ventos de verão

tão branco



turbulência nocturna

A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.
O leitor tornava-se no livro; e a noite de verão

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
A não ser o leitor inclinado sobre a pagina,

A desejar inclinar-se, a desejar extremamente ser
O letrado para quem o seu livro é verdadeiro, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava silenciosa porque assim tinha de estar.

O silêncio fazia parte do sentido, parte do espírito:
Era a perfeição no seu acesso à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo,
No qual não há outro sentido, a própria verdade

Está calma, ela própria é verão e noite, ela própria
É o leitor em tardia vigília, inclinado, lendo.

Wallace Stevens/ Transport to Summer(1947)

20.7.15

portão fechado

eu vi uma asa de pássaro inteira no canteiro de cravos-do-poeta
                                como se fosse um cravo de Cristo
eu vi um jovem pardal, morto no tapete da entrada de casa
                                como se fosse uma oferenda
eu vi uma pata do borrego desaparecido tão pequena e branca,
                                jazendo sobre o relvado  
eu vi cadáveres de passarinhos recém-nascidos caídos dos ninhos
eu vi um bando de corvos a esvoaçar em volta dos freixos antigos
eu vi um milhafre a sobrevoar os pavões que seguiam a mãe
                                e depois vi que só restava um
eu vi uma ervilha-de-cheiro a enrolar as gavinhas 
                                em volta de outra
eu juro que vi uma hera a matar uma árvore
eu vi trepadeiras a correr os cem metros com barreiras
eu vi uma erva daninha encostada a um cacto
eu vi um malmequer a imitar uma rosa
  

17.7.15

Sobre a amizade

(...)a amizade é uma forma de discrição:não admite a maledicência que maldiz quem a diz, nem o mexerico que tudo transforma em lixo. Amizade é confiança. (É mais vergonhoso desconfiar dos amigos do que enganá-los, escreveu La Rochefoucauld.) Que a amizade, para ser próxima, nos ensina o caminho do respeito e da distância. Se bem que a amizade autorize a amar e detestar as mesmas coisas.
Carlos Fuentes/Aquilo em que Acredito

Mónicas



-Tantas qualidades, e um tipo neurótico, que perigo! Quando vi Para Roma com Amor, havia uma Mónica que ao longo da história foi sendo desconstruída, até que se revelou, insinuante, culta, inteligente, sensual, exemplar, inconstante, sedutora, egoísta, saltitante, ambiciosa,(im)previsível. Esta Mónica tão maltratada no filme de Woody Allen, fez-me lembrar um dos Contos Exemplares de Sophia, exactamente com esse título: Mónica.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve de renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade. A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias. Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista».

Eu também já tive a minha Mónica. Agora há muito tempo que não sei dela. De um dia para o outro desapareceu, deixando atrás de si um rasto de destruição. 

Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Fiquei mais pobre desde que conheci a minha Mónica; ela fez-me perder a confiança. Para sempre.   

16.7.15

o portão está aberto






















Eu sabia que viria hoje, quando é assim o portão não fica trancado, portanto não estranhei quando ouvi um tractor a avançar caminho fora, entre os choupos e nuvens de pó, com os cães ao lado, a ladrar e a tentar morder as rodas. Levantei a cabeça das roseiras, para responder ao aceno do Sr. José Maria na curva junto ao jardim, enquanto berrava pela Espiga, que é sempre a pior, e costuma morder, não só em pneus. O Sr. José Maria não precisa de mim para se orientar, continua o seu caminho rodeado por cães, passa pela casa, pela vereda de amoreiras, e antes da pequena ponte sobre a vala, pára para abrir a porteira da cerca onde vai gadanhar, e começa imediatamente no seu vaivém, atento ao trabalho. Há uma fiada de pinheiros mansos ao longo da vala, talvez uns seis ou sete e depois começam os freixos, alguns deles frondosos, com muitos anos. Há também uma pequena mata de pinheiros à esquerda, e uma ribeira, que costuma secar no Verão, ladeada por caniçais e urtigas, junto ao muro alto que limita a quinta e que segue até ao tanque, à nora, e à antiga casa do hortelão. Em todas estas árvores abundam pássaros, rouxinóis que cantam maravilhosamente nas noites de Primavera, pintassilgos, cucos, rolas, corvos, pardais, piscos, pegas. Tenho reparado que grande parte da vida dos pássaros é passada entre os ninhos e a procura de alimentos e de água, sobretudo nesta altura do ano. Os pintassilgos são pássaros muito inteligentes, e, tal com as pessoas, tentam arranjar local para procriar bem perto da fonte de alimento, portanto um campo de cardos é para eles a visão da abundância, uma vez que se alimentam das suas flores. E um campo de cardos não serve para nada, os animais não pastam, nada lhe sobrevive, nada, a não ser esse ser maravilhoso, pequeno e multicor, que consegue transformar cardos em melodia e penas, vermelhas, amarelas, brancas, cinzentas. Os pinheiros e os freixos estão nesta altura carregados de ninhos de pintassilgos, que não precisam de voar muito para terem o que procuram, e um grupo de pintassilgos a voar sobre um campo de cardos é algo que se aproxima de uma imagem do paraíso. Enquanto penso nestas coisas, o Sr. José Maria, vai gadanhando o campo de cardos. Traz as mãos protegidas por luvas, um chapéu de palha, e óculos escuros. Em volta do tractor dezenas de andorinhas aproveitam para apanhar no ar os insectos que se espantam, e os pintassilgos só voltam ao fim da tarde, para apanharem as sementes que ainda sobram. Nunca pensei que um campo de cardos pudesse ser tão bonito.














flor de cardo
























O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. 
Eis o país do exterior onde cada coisa é:

                                       trazida à luz
                                       trazida à liberdade da luz
                                       trazida ao espanto da luz

Sophia de Mello Breyner Andresen/Geografia

utopia

os meus pardais já descobriram que eu não consigo voar, que eu sou uma falsificação de pássaro, que eu vivo um não-lugar 

15.7.15

Acarro






um bilhete de amor

Começo a rega já tarde. Sei que tenho que me apressar para conseguir regar tudo antes da noite. A lua desaparecida faz-me falta, faz falta no campo onde descreve um arco a imitar o sol, nascendo à noite no mesmo monte onde desponta a luz que acende a manhã. Vou enchendo o regador no lago e levando a água morna a todas as flores; vai ficando um rasto dos meus trajectos marcado na calçada molhada. Quando acabo, já quase não consigo distinguir os canteiros e os contornos do jardim; inspiro alfazema, glicínia, petúnia, loendro, lantana. Tenho os pés molhados e sujos de terra. Encaminho-me para a mangueira das traseiras para passar os pés por água antes de entrar em casa, e é então que dou com a imensa calota do céu inteiro sobre os meus ombros, Vénus que me fixa o olhar, sem pestanejar um segundo, sempre ali, no mesmo ponto onde no outro dia passava uma cegonha em voo rectilíneo de regresso ao ninho; a Ursa Maior e a Ursa Menor, papagaios de papel que escaparam das mãos de crianças num dia de vento, e se acendem todas as noites; Cassiopeia, uma fita métrica articulada de que Deus se esqueceu quando media o firmamento. Paro. Fico ali a pensar na mensagem que recebi esta manhã no telemóvel: A NASA chama-lhe "bilhete de amor": veja a imagem espantosa de Plutão enviada hoje pela sonda New Horizons; e na capacidade única que o Homem tem de se deslumbrar, e de amar o Universo.

13.7.15

Última hora: Lua avistada no Alentejo por birdwatcher























A Lua, em fuga desde a passada quarta-feira do barco pirata fundeado ao largo de Cascais, interceptado pelas autoridades portuguesas e vigiado vinte e quatro horas sobre vinte e quatro por um barco patrulha, foi avistada pelas doze horas de quinta-feira passada por uma birdwatcher, que regressava à herdade onde vive, no Alentejo profundo. A mulher, de meia-idade, preferiu manter o anonimato, temendo retaliações pelo conhecido grupo "Bando do Norte", um gangue de familia de perigosos malfeitores, liderado por G., a prima mais velha, envolvido esta semana no rapto de um canídeo de grande valor estimativo, mascote do barco, que à hora do fecho deste jornal não se sabe se ainda é vivo. O incidente deu-se na sequência de os dois grupos não terem chegado a acordo sobre o valor atribuível à Lua, nessa altura já em baixa. Segundo a Agência Lusa, a Lua deixara de ser vista no dia 3 de Julho, após espectacular aparição em brilho e tamanho, tendo motivado a cobiça por parte de um grupo de poetas pós-modernos denominado Orpheu 3, seguidores de Álvaro de Campos, que terão contratado a secção de serviços de extorsão do referido barco, de nome "Stars & Mythical Creatures", cuja capitã é uma conhecida pirata socialite, agora em prisão domiciliária, a fumar cachimbo no mastro às escuras. Tentámos contactar a sua sponsor, sócia, e dona do referido canídeo, a bela Palmier, mas soubemos que continua a encoberto, tendo sido avistada pela última vez no Sábado passado a ver montras na Rua Direita, em Cascais, de vestido comprido azul, sujo de óleo, o que levantou imediatamente suspeitas. Segundo as mais recentes informações apuradas por este jornal, G. terá sido sequestrada pela organização Piratas Anfíbios, e estará a ser torturada até revelar o paradeiro de Cutxi, a Schnauzer miniatura raptada. A sorte da cadelita está a causar grande consternação entre os movimentos dos amigos dos animais, que colaram pelas cidades a sua última fotografia, sentada num fauteuil art deco, envergando várias coleiras de contas semi-preciosas. Entretanto o mau estado da Lua, visível na fotografia tirada pela birdwatcher, levou a temer o pior. Segundo fonte fidedigna, uma rede internacional de piratas terá ficado com metade da Lua, e o receio de alguns estudiosos destes assuntos é que estejam a tentar cloná-la. Cientistas da NASA declararam em entrevista à CNN que este processo pode pôr em risco todo o sistema solar, e originar vários sistemas, comandados por piratas. A Reuters revelou que a espionagem internacional estará a ter um papel importante no deslinde da ocorrência, ligada a máfias emergentes. O valor de um resort lunar pode atingir preços incomensuráveis e vir a tornar-se o destino de férias dos grandes magnatas, bem como o quartel general dos mafiosos. Especialistas esperam subidas acentuadas na bolsa nos próximos dias. Fala-se até de uma nova moeda, concorrente do euro e do dólar, o pirate, com hipótese de vir a ser cunhada na terra do grande armador grego, Aristóteles Onassis, tendo a efígie de Cutxi. Quanto à Lua, voltou a deixar de ser vista e teme-se que tenha abandonado a sua órbita para se juntar a Plutão, o planeta que foi "rebaixado" à categoria de planeta anão, e que pode assim vir a ganhar um novo protagonismo.

11.7.15

Amor nocturno



(...)
Meu amor,
amor de uma viagem nocturna
com as andorinhas,
iluminou-se o teu corpo na noite.
Iluminou-se com a palavra exacta
que muda os cavalos em rios,
os rios em aves,
as aves na tua boca.
Eugénio de Andrade/ Litania

quando as andorinhas vêm beber água



explicação dos pássaros

A mãe disse-lhe escreve-me
De lá de longe para onde vais
E ela disse não é longe casar
E a mãe sorria cega de dor
E parecia de deslumbramento

Daniel Faria/ Explicação do sorriso

10.7.15

Porta de embarque

Sento-me à secretária, e começo a escrever. Faço-o directamente no computador, sabes, gosto de teclas. Como tu, gostava de saber tocar piano. Se soubesse tocar piano, hoje não escreveria nada, tocaria. As janelas estão abertas no escritório, estou quase à altura dos pinheiros; ouço-lhes o marulhar de vaga, os rebentos novos e verdes oscilando, contra o céu. Cada árvore exprime o vento da sua maneira muito própria, e um cheiro a maresia vem morrer-me na ponta dos dedos. Hoje chegou uma carta por Air mail, dentro daqueles envelopes azuis, quase transparentes, emoldurados por riscas bicolores em diagonal, uma carta muito antiga. Incluía um mapa-mundi e uma passagem de avião. Sei alguma coisa desses mapas, que se inscrevem nas palmas das mãos com rotas, como linhas de vida. Há muitos anos, um carteiro entrou no colégio e estendeu-me um envelope desses que tinha escrito por fora para entregar à menina mais bonita que encontrar; eu não queria, mas ele insistiu, eu via os soldados na televisão, a desejarem bom Natal às famílias, e um Ano Próspero, e alguns choravam, eram muito novos, tinham saudades de casa, alguns já tinham morrido, ou morreram a seguir. Por isso aquele envelope causou-me um horror de morte, comecei a ler e não consegui, guardei-o e nunca mais o abri. Naquele dia teria tocado piano, se soubesse. Quando abri o envelope, aquele que chegou hoje, lembrei-me que te encontrei num livro que li há um ano, e fui buscá-lo. Foi um livro que me perturbou, que adorei ler, e que hoje tive dificuldade em encontrar. Sem nenhuma lógica, ou talvez não, tinha-o guardado entre Calvino, Modiano e Munro. Comecei a reler o livro e a marcá-lo com o teu convite; encontrei nele outras marcas, todas elas importantes. Sem haver lido uma única palavra tua dizias-me tudo, dizias-me que reflectiras, que caminharas, que sentiras, e que tinha chegado o momento. E que esse momento não viera de maneira impulsiva, leviana, tinha sido conquistado a pulso nos dias e nos anos. Referes o local, o dia e a hora a que eu sei que embarcarás convicto, mas não sem receios(como quando se entra num avião), e eu lá estarei na porta de embarque para me despedir de ti, e pedir-te que não te esqueças de me escrever.


Suponho que, no entanto, ao encaminharmo-nos para esse mesmo lugar, os nossos passos juntos(ecoando descompassados porque já são quatro pés que caminham), pensamos acima de tudo um no outro, pelo menos eu penso. Creio que, no entanto, não nos trocaríamos por nada do cobiçado mundo, ainda não exigimos um do outro a mútua abolição ou aniquilamento, do que cada um era e daquele por quem nos apaixonámos, limitámo-nos a mudar de estado, e agora isso já não parece assim tão grave ou incalculável: sou capaz de dizer:«fomos» ou «vamos comprar um piano» ou «vamos ter um filho» ou «temos um gato».
Javier Marías


Ao Pedro e à Neuza

mudança de estado



































A frase feita mudar de estado, que normalmente se emprega sem pensar e, por isso mesmo, significa muito pouco, é a que me parece mais adequada e precisa no meu caso, e, ao contrário do que é costume, confiro-lhe gravidade. Tal como uma doença por vezes altera o nosso estado ao ponto de nos obrigar a interromper tudo e a ficar de cama durante dias a fio e a ver o mundo apenas a partir da almofada, o meu casamento veio interromper os meus hábitos e até as minhas convicções e também, o que é mais decisivo, também a minha forma de ver o mundo. Talvez por ter sido um casamento algo tardio, tinha eu trinta e quatro anos quando o contraí.
Javier Marías

conversas de travesseiro

(...)
«Na cama tudo se conta», não há segredos entre os que a partilham, a cama é um confessionário.
(...)
Para agradar a quem se ama, denigre-se o resto do que existe, nega-se e deprecia-se tudo o mais para contentar uma única pessoa, que se pode ir embora, a força do território delimitado pela almofada é tal que exclui do seu seio tudo o que se encontra fora dela, e é um território que, pela sua própria natureza, não admite nenhuma presença para além dos cônjuges, ou dos amantes, que, em certo sentido, ficam sozinhos e por isso falam e nada calam, involuntariamente. A almofada é arredondada e fofa e, amiúde, branca e, ao fim de um tempo, o arredondado e o branco acabam por substituir o mundo e a sua frágil roda.
(...)
Javier Marías/ Coração tão branco

Vénus

E os passarinhos antigos adormeceram à janela 
mesmo por baixo de Vénus, 
que parecia uma estrela.

9.7.15

Poema dos passarinhos antigos

Era um par de jovens. Ela e ele. Ambos jovens.
Alegremente cantavam as canções dos jovens
e tinham orgulho em dançar as danças ruidosas dos jovens.
Como jovens que eram riam-se das pessoas antigas
por já não serem jovens,
por não saberem dançar as suas danças de jovens,
por não saberem cantar as suas canções de jovens.
Mas num dia em que os seus olhos se encontraram de certo modo,
sentiram nos seus corpos um estremecimento antigo.
As células antigas dos seus corpos jovens
estremeceram.
As palavras de amor saíram-lhes da boca
pressurosas e múltiplas,
como as pequenas bolas de sabão
quando num tubo estreito são sopradas.
E juntamente com elas saíram passarinhos leves,
passarinhos antigos,
tão leves como as bolas de sabão,
e os passarinhos iam debicar nos lábios de ambos,
e os lábios intumesciam-se, vermelhos e macios como polpas,
e os passarinhos roçavam a penugem do peito pelas pálpebras deles
com os bicos alisando as sobrancelhas,
e aninhavam-se entre a carne e a roupa
batendo as asas num saber antigo.
Quando acordaram e quiseram sacudir o pó do tempo
ouviram o riso dos jovens que se riam das pessoas antigas,
e alegremente cantavam as suas canções de jovens
e tinham orgulho em dançar as danças ruidosas dos jovens.

António Gedeão/ Poema dos passarinhos antigos

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«responda sucintamente à pergunta», lembrei-me, uma ordem antiga.

8.7.15

até ontem

ele repetia-me muitas vezes, em tom de aviso, olha que eu sou uma libelinha... eu olhava-o, entre o inquiridor e o incrédulo, e pensava, como é possível alguém autodenominar-se de insecto, estiolado, inconstante, transitório, zumbidor, tira-olhos, faz de conta, predador, exterminador, fêmeo, macha, helicóptera, violadora, bulímica, sonsa, com lula, com torcionista, metamórfica, metafórica, sincera, bela.

libelinha


A natureza produz semelhanças. Basta pensarmos no mimetismo. É, porém, o homem que possui a mais elevada capacidade de produzir semelhanças. Este dom que o homem tem não é senão um rudimento da violenta coacção a que ele estava sujeito outrora, para ser semelhante e para assim se comportar. Talvez o homem não possua mesmo nenhuma faculdade superior que não seja condicionada pela faculdade mimética.

Walter Benjamin/Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política

7.7.15

pintassilgo em campo de cardos



nem todas as aves são pássaros

A janela da sala de jantar abre-se para a vereda de amoreiras, para um relvado, e para uma pequena horta. Um tufo de bambus que oscila ao vento, aparece e desaparece na moldura da janela, subtil como num quadro japonês. Vivo com dois pardais. Suponho que terão um mês de vida, mas já voam. Penas castanhas substituíram os eixos centrais(raque)em erupção na pele nua dos primeiros dias, e foram-se abrindo como pequenos leques até cobrirem todo o corpo com sedosas tetrizes, enquanto nas asas, as cada vez mais longas rémiges, os fazem voar até ao alto do tecto abobadado que percorrem em círculos vertiginosos. Como adolescentes, espantam-se com a cauda a crescer todos os dias, aborrecem-se quando a levam às costas, quando esbarra em todo o lado, mas vão aprendendo a usá-la com perícia de acrobata, as rectrizes são um skate do ar, inclinam-se, levantam-se, flectem para a direita e para a esquerda até baixarem na aterragem com precisão, nos candeeiros, no espelho, e no quadro em frente. Quando os encontrei, um deles havia caído do ninho, feito na palmeira secular, o outro do telhado do alpendre. Devem ter uma semana de diferença, mas o mais novo foi imitando o mais velho, e praticamente já fazem as mesmas coisas. Tenho espaçado as refeições e aumentado a quantidade. Há dois dias que coloco sementes de mistura para canários(painço, alpista, linhaça, alface, papoila azul) camufladas por entre as rosas secas da taça que está junto à janela, pelas quais se interessaram. Agora acordo mais cedo. Solto-os. As pétalas de rosa voam sob as asas, apanham uma vermelha, e fogem com ela no bico, pousam na moldura do quadro, voltam à taça onde estão as rosas do Verão passado, olham de lado para as pequenas sementes, experimentam comê-las, começam a usar o bico com precisão cirúrgica, desembaraçando-se das cascas. Mas as sementes dão muito trabalho, a pequena colza escapa-se e rebola, esconde-se por baixo da taça, ah! agora apanhei-te de novo, vou tentar, consegui!, que divertido é viver. Se apareço voam na minha direcção, pousam-me na mão, no ombro, já têm fome de novo. Mas papas,... outra vez! Esta está muito grossa, não quero mais. E vira a cabeça, avalia a distância, dá um voo até ao abat-jour, limpa o bico, endireita as penas, adormece. E que fixe é tomar banho no bebedouro da água, anda também, deixa-me, agora sou eu, olha dei um mergulho, que bom! Olha ali uma piscina! Bora! Ela diz que podemos, chapinha com o dedo, estás a ver, é porque podemos; e a digestão, já fizeste a digestão? E ao cair da noite estão exaustos. São horas de regressar à gaiola. Só mais um bocadinho!, pedincham, e voam para cima do armário. Agarro-os, fogem-me por entre os dedos, depois lá consigo enfiá-los na gaiola. A porta desliza, fechando com um som metálico; apago a luz. Em breve adormecerão. Aqui em casa são eles os exóticos, como quando chegaram ao Brasil, em 1903, os primeiros pardais provenientes de Portugal.  

fomite

há muitos anos aprendi que não se devia menosprezar o conceito de fomite, que implica que tudo o que não é animado pode veicular vírus, bactérias, parasitas, fungos, microrganismos patogénicos portanto, susceptíveis de transmitir doenças; um copo, um guardanapo, roupa, talheres, etc, no caso dos animais, tigelas, camas, brinquedos...e cedo comecei a extrapolar esse conceito para a alma: um livro, uma fotografia, uma carta, um bilhete para um concerto, uma conta de restaurante, uma caixa de fósforos, uma passagem de avião, uma flor seca, uma moeda, uma chave, uma concha, a coleira de um cão que já morreu  

6.7.15

memória. curta # 8

Combinámos que não pagaria as consultas. Tinha muitos animais em casa, e outros tantos protegidos; lembro-me da sua singularidade e da sua sofisticação, por um lado, e de como se relacionava com os outros, sem elitismos. Ao longo dos anos fui-me apercebendo da sua sensibilidade para com o sofrimento, e da sua repulsa pela arrogância. Ajudava muita gente. A certa altura começou a trazer-me livros, muito bem embrulhados, sobre temas de que falávamos durante as consultas, romances, ensaios, poesia. Devia reparar em como eu ficava feliz por recebê-los, encantada com o aroma dos livros novos, ao desembaraçar-me do papel de embrulho, folheando-os à sua frente. Sem motivo especial, ou pelo menos para mim, no fim de algumas consultas, tratamentos, ou cirurgias, retirava mais um volume do saco que trazia a tiracolo, e colocava-o delicadamente sobre a secretária. Embora adorasse os presentes, não queria que o fizesse, porque me sobrava a sensação de não ter apoiado o suficiente. Agora, que já passaram alguns anos, não fiquei com a certeza de ela ter valorizado tanto a minha dedicação e o meu trabalho(tantas vezes fora de horas), quanto eu fui valorizando as conversas que tivemos, por causa daqueles livros que ficaram, e que, ao serem lidos ao longo do tempo, mantiveram viva a cumplicidade e a memória desses dias. 

Still life


































































































fim

Sabemos que quando se trata de sofrimento, e de luta pela vida, não há fim; há sim um trabalho interminável, esgotante, triste. Só na ficção e na morte é que há fim.