Atalhos de Campo


4.6.15

O sonho de Zola

Passava uma ligeira brisa entre nós e a banca dos livros, mas as costas estavam ao sol. Havia livros a sete e meio, a cinco, e a menos que cinco euros, belíssimos. Eu ia fazendo uma pilha e a minha mãe outra. Comecei a ler as sinopses, era uma vez duas meninas muito amigas, que...se apaixonaram, esse não, dizia a minha mãe; era uma vez dois namorados que se tinham acabado de reconciliar e pararam numa estação de serviço para comemorar, e ela...desapareceu..., esse não, disse a minha mãe, pode ser violento; era uma vez uma rapariga que estava num colégio interno, e quando volta para a mansão onde viviam os pais resolve... vingar-se deles..., esse nem pensar, disse a minha mãe, enquanto o calor aumentava e já começava a ficar insuportável; era uma vez uma casa de campo, onde se reuniram vários amigos, e um dos rapazes pediu a namorada em casamento, até que chegou a beldade do grupo e...esse é melhor não, disse a minha mãe, vamos embora; mãe, só nos falta um, estou a tentar ajudá-la, esta geração não lê nada, nem sei porque estou aqui a comprar-lhes mais livros, mãe, este parece-me bom, era uma vez uma mulher que resolveu retirar-se para escrever sobre o amor da sua vida..., de que século é isso?, dezanove, disse eu, elas não gostam disso...e, perguntando à menina que estava a atender, esta gente nova, o que é que lê agora?, se forem raparigas, este tem muita procura, era uma vez uma rapariga que aprendeu a seduzir, usando..., este é melhor não, acabei por dizer eu, e, já em desespero, peguei num qualquer e disse: este é bom. A menina concordou que aquele também era muito procurado, e eu desta vez resolvi não ler a sinopse. Enquanto escolhíamos os livros para as minhas sobrinhas de catorze, dezassete e vinte e um anos, lembrei-me de que aos doze anos li O Sonho, e nunca mais me curei.  

2 comentários:

  1. Adorei ler este post. Praticamente senti o sol a bater também nas minhas costas e creio ter ouvido as vossas vozes a conversar.

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    1. Obrigada, Susana, é o que me acontece enquanto vou lendo os teus, somos mundos dentro de mundos...vozes bonitas e soltas, por aí...

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