Atalhos de Campo


8.6.15

O bode dos olhos glaucos

Avisamos os senhores passageiros, que o comboio intercidades com destino a... a voz finalmente ecoara na estação enquanto ela se levantava, com o cão ao lado. Momentos antes passara um rápido, que fizera estremecer o pavimento e rodopiar os papéis soltos pelo chão, e nessa altura pegara no cão ao colo, porque ele, assustado, colocara as patas em súplica, sobre os seus joelhos. Finalmente embarcava, ansiosa por que o tempo voasse. O cão, que pagara um bilhete de adulto, viajava deitado no lugar ao lado do seu. Adormecia pouco depois, exausto do stress provocado pela espera na estação, deitado sobre a protecção que ela levava consigo, sempre que viajavam. Aproveitava a viagem para ler o jornal. Ao Sábado o comboio levava poucos passageiros, a paisagem corria rápida entre as únicas quatro paragens, e a certa altura eram sobreiros e azinheiras que dominavam o anoitecer até que a planície se ia esgotando ao mesmo tempo que o dia, quando o comboio lhe sussurrava que já tinham chegado. Ele aparecia, sempre apressado, vindo de alguma urgência no campo. Hoje ainda temos que ir a um sítio, há um bode doente numa quinta mesmo à saída da cidade, disse-lhe depois de se abraçarem. E passado pouco tempo chegaram a um local insólito. Um portão alto, pintado de vermelho, apareceu diante dos faróis do jipe, e uma buzinadela suave fez surgir um homem rodeado de dezenas de patos, galinhas e gansos(que tomaram a dianteira), cacarejando e grasnando. Ao lado do homem, que foi ficando para trás, caminhava com dificuldade um bode enorme, de olhos glaucos. Sôtor, salve-mo, que é como um cão para mim, está tão doente...não come há três dias, o magano, desconfio que o vizinho aqui do lado lhe andou aos tiros, porque já me ameaçou que mo matava. Não quer que eu tenha aqui tantos animais, diz que cheira mal, que não há sossego, que os cães ladram a toda a hora, mas o que quer, isto era dos meus pais, que já morreram, e eu comprometi-me a tratar dos animais, venho cá uma vez por dia, agora aconteceu este azar com o bode, o meu amigo. Olhando em volta, ela reparou que as galinhas e os patos haviam debandado, e o homem enxotava os gansos, enquanto o bode era observado. O cheiro a azedo e a putrefacção era horrível: dezenas de embalagens de iogurte, de sacos de plástico e de latas vazias acumulavam-se por todo o lado. Dois ou três cães, dando puxões às correntes sustinham-se nas patas traseiras, e desenhavam semi-círculos no chão enquanto corriam em volta das casotas de madeira, ladrando sem parar. Quando abandonaram o local era noite feita, e o homem magro, desalentado (porque lhe fora dito que o prognóstico era muito reservado), ao fechar o portão, sempre acompanhado pelo seu amigo, ficara a acenar até se transformarem os dois numa silhueta única, perdida na noite. A necrópsia veio a revelar que a causa da morte tinham sido dezenas de bocados de plástico acumulados no rúmen e nos intestinos. O bode morrera no dia seguinte, mas a imagem daquela amizade, essa perduraria. A única, a que era possível.

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