Atalhos de Campo


22.6.15

O alpendre

O alpendre da casa é uma enorme gaiola sem portas nem janelas. Passa por ele uma brisa fresca que vem de sul e é para onde o sol olha quando termina o dia. Entre as telhas e as vigas largas de betão há dezenas de ninhos de pardais. Alguns são pardais comuns, outros espanhóis, com as penas das asas pintadas de castanho escuro e o peito cinzento. Por vezes os ninhos caem, outras caem os passarinhos mais aventureiros, antes de saberem voar, mas a maioria das vezes corre bem, e os pais começam a dar-lhes lições de voo a partir do telhado para o estendal da roupa, que está nas traseiras, e depois para a cerca, e depois para a vida. Todo o processo é muito rápido. Fabricam-se revoadas de passarinhos na Primavera, o alpendre compete com a palmeira, que compete com os pinheiros mansos. E pela madrugada, em grande algazarra, aqueles pais voam ainda ensonados dos arranha-céus que fazem de dormitório, e começa a labuta por comida para a família, um não mais terminar de ir e vir, para regurgitar iguarias nas bocas que se abrem ao fundo dos ninhos. Nesta altura do ano é frequente dar de caras com passarinhos moribundos na relva, ou mortos no alpendre, (quando os cães e os gatos não os viram primeiro), ou com ninhos feitos por pais inexperientes, ainda com os ovos intactos, que caíram num dia de vento, ou ainda fazer a assombrosa descoberta de um pequeno e indefeso pardalito, que não nos reconhece como inimigo, e nos abre imediatamente o bico a pedir comida. Foi o que aconteceu há três dias. Quando me preparava para ir regar os vasos do alpendre, ouço um pio próximo da minha cara, e vejo um pardal caído num vaso que estava vazio, como se fosse uma bola de snooker acabada de entrar na baliza. Os pardais muito jovens que consegui resgatar este ano acabaram por morrer. Suponho que alguns tivessem já lesões muito graves, mas foi com eles que ganhei alguma prática, e continuo a tentar salvá-los. O segundo pardal que apanhei nesse dia estava caído na relva, como morto. Era mais novo, quase sem penas, mas mexeu-se quando lhe peguei. Encontrei o ninho no chão e aproveitei-o para os manter mais confortáveis, dentro da mesma gaiola. Alimento-os com uma farinha fina que obtenho no almofariz com a mistura para pintos do dia, e depois faço uma papa com água morna (da consistência das papas de bebé), que lhes vou dando de duas em duas horas, com uma colher de café. É fácil porque estão sempre famintos e engolem tudo voluntariamente, enquanto vou prestando atenção ao papo, para que não fique demasiado cheio. No fim dou-lhes umas gotas de água a beber, e coloco-os no ninho. Passaram setenta e duas horas. A cauda do maior aumentou para o dobro, as asas já cresceram e está mais gordo e interactivo. O mais pequenino pede constantemente comida e aninha-se no outro para dormir. Se me disserem que isto é uma crise de infantilidade, que os pardais são uma praga, que é tempo perdido salvar um pássaro destes, eu escuto com muita atenção, e depois penso, poucas coisas na vida são um desafio como salvar um pardal, e isto pode ser entendido como cada um quiser. 

3 comentários:

  1. Querida Teresa Borges do Canto,
    Entendo-os como desvelos maternais para com pardais.
    Bom dia,
    Outro Ente.

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    1. Nem imagina quanto acertou. É absolutamente verdade. Apetece-me tanto ir buscar um daqueles órfãos perdidos pelo mundo fora, e fazer o mesmo que faço com estes pequenos pardais.
      Bom dia, Outro Ente.

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  2. Querida Teresa, fiquei emocionada com o seu texto. Afinal, é esta a história! Uma história de esperança, renovada de duas em duas horas. Fico a aguardar mais notícias dos pardalinhos. Já quase que me sinto como se fosse sua madrinha :)

    Um beijinho

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