Atalhos de Campo


13.6.15

notícias da quinta (8)

Não um corvo
mas uma folha seca
bate na grade
da minha janela
Adília Lopes


Hoje choveu. Enquanto tomávamos o pequeno-almoço os pardais vinham beber água à taça do lago. Há um nenúfar novo, e a boca das carpas aparece por entre as folhas flutuantes, a apanhar insectos e larvas de mosquito. As hortênsias estão carregadas de flores cor-de-rosa, os gladíolos abrem-se numa profusão de cores surpresa, os cravos-do-poeta rimam em maciços por entre roseiras e cravinas perfumadas. O verde agradece a água do céu e contempla-a com novos rebentos; a oliveira secular, transplantada no ano passado, começa a habituar-se à companhia de zínias e malmequeres, que substituíram anémonas e lírios. A janela rasga-se até ao chão, para que o jardim entre pela casa. Pela tarde chegam os pavões que se espreitam, reflectidos no vidro, e depois debicam as folhas tenras das zínias, e engolem inteiras as flores doces dos loendros. Num eucalipto já seco, está pousado um corvo, que se move numa estranha dança enquanto crucita; responde-lhe outro, ao longe; uma rola vai pousar, curiosa, num tronco à sua frente, e ele continua a dança, envaidecido. Os rouxinóis já pararam de cantar, até à próxima Primavera.

2 comentários:

  1. A Teresa, claramente, escreve-nos à janela do paraíso.

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    1. Um paraíso de mãos na terra, e muito trabalho, mas o resultado compensa. O jardim vai ganhando harmonia de ano para ano, e já há sementes a nascerem espontaneamente, no meio das outras plantas e arbustos. Quando comecei a vir aqui, há três anos, havia só uma cravina num vasinho minúsculo, que eu regava e que acabou por morrer no Verão.

      Boa noite, JM. :)

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