Atalhos de Campo


15.6.15

memória. curta # 7

Ele contava-me que eram as primeiras, punham-se em fila, passando mesmo à frente dos colegas, prontas a empunhar o canivete para matar as ovelhas. Um homem chegava de manhã com uma carrinha de caixa aberta, cheia de animais para sacrificar para as aulas de anatomia. Os animais vinham em muito má condição física, magros e doentes, ou eram velhos em fim de vida reprodutiva. Era essencial praticar nos cadáveres para conseguir fazer a cadeira. Por isso havia inscrições para animais extra, comprados pelos alunos, para dissecarem para além das aulas práticas, antes do exame final. Inscrevi-me num desses grupos, e, a certa altura, vieram dizer que o professor obrigava cada um a matar o seu animal. Era a brincar, claro, mas naqueles dias, tal como hoje, preferiria mudar de curso a ter que o fazer. No entanto, reconheci-as pela vida fora, a essas pessoas, algumas eram mulheres com especial prazer em matar e ver morrer, prepotentes, arrogantes, sarcásticas, gélidas. Lembro-me que uma vez, durante um jantar, alguém se lembrou de dizer que atiçava os cães contra os gatos, enquanto assistia ao espectáculo sentada na varanda das traseiras, e a rir, rematou que quando as gatas estavam grávidas era quando lhe dava mais gozo assistir. Era mãe de sete filhos.  

2 comentários:

  1. Querida Teresa Borges do Canto,
    Não encontro, na minha memória longa, ideia de me ter cruzado com gente tão desprezível. Deduzo que tenha sido um relacionamento curto.
    Boa tarde,
    Outro Ente.

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    1. Cruzei-me com essa pessoa uma vez na vida, num jantar em que éramos ambas convidadas, e foi tudo. Felizmente nunca mais a vi, e já lá vão muitos anos. Como sabe, os gatos são vítimas frequentes de violência, há muita gente que não esconde que os odeia, e lamentavelmente chegaram-me às mãos alguns casos chocantes de agressão e maus tratos, por pura crueldade.
      Boa tarde, também.

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