Atalhos de Campo


26.6.15

inquietação

É um pássaro perfeito. Observo-o tanto, quanto ele a mim. As asas crescem de dia para dia, o peito é revestido por uma penugem cinzenta clara, a cauda empertiga-se para equilibrar o corpo, e vira, como um leme do ar. Os olhos, iguais a pequenas contas negras, são delineados por uma risca escura, que se abre para dar passagem a uma pincelada de quase amarelo. Fabritius tê-lo-ia pintado com a mesma perícia com que pintou O Pintassilgo. Já dorme menos. Em vez disso, coloca a cabeça de lado para ver melhor o céu, enquanto o outro ainda se esconde por entre as penas do ninho, a dormir, depois de cada refeição. Desde há dois dias que se dedica a fazer exercícios de asas, que batem a uma velocidade louca enquanto fica parado no centro da gaiola, deixada hoje propositadamente lá fora, para que ouvisse os outros pardais a cantar, e os visse a voar. Observar isto é delicioso, como travam e derrapam, como conseguem ficar suspensos no ar sem bater as asas, para a seguir fazerem uma inflexão no voo, e pousarem numa árvore, no beirado, ou partirem para um voo maior. Reparei que consegue saltar da base da gaiola para o primeiro poleiro, e depois para o poleiro mais alto, e, a seguir, pendurar-se nas grades, que ele sente ainda, e só, como uma diversão. Estou inquieta em relação ao futuro destas pequenas aves que salvei. Em breve terei um dilema. Agora que as amo, solto-as, com todos os riscos que isso implica, ou prendo-as numa atitude egoísta de as proteger para não sofrer a sua perda? Não fui eu que andei à procura de pardais caídos do ninho, encontrei-os, ou melhor, foram eles que me encontraram a mim, o que faz toda a diferença. Mas também não gostava de ter um pássaro aprisionado, como o triste passarinho da pintura do mestre de Vermeer.

4 comentários:

  1. Querida Teresa Borges do Canto,
    Creio que os soltará quando os sentir prontos, percebendo as grades como prisão. Bem-haja pelo salvamento.
    Bom fim de semana,
    Outro Ente.

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    1. É mais difícil porque são os primeiros...mas sim, provavelmente é o que farei. Seria um contra-senso fazer o contrário.
      Vou ter muitas hipóteses de salvar mais.
      Obrigada, Outro Ente.
      Bom fim-de-semana, também.

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  2. É um prazer saber novas dos meus afilhados e ficar ao corrente das suas habilidades através de um texto tão bem escrito. Constato que os nossos pardalinhos estão a vingar e a crescer, como se quer. A Teresa tem cuidado muito bem deles e eu sempre soube que estavam em excelentes mãos. Quanto ao seu destino, o seu coração decidirá certamente o que é correto, mas a Teresa sabe que não há maior prova de amor do que aquela de deixar partir, permitindo que a mãe-natureza assuma o seu papel. Mas, para já, desfrute das "gracinhas" :)

    Um beijinho

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    1. É o que tenho feito, num perfeito embevecimento. Nunca pensei conseguir, e estou muito feliz por isso.
      Vou desfrutando, sim.
      Um beijinho :)

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