Atalhos de Campo


5.6.15

gelado de framboesa vs. gelado de café

Fiz-lhe a pergunta com medo que me dissesse que não. Estávamos cansadas e para chegarmos ao carro ainda tínhamos que atravessar o sol, com os sacos cheios de livros. E se os livros pesam. Fiquei aliviada quando me disse que sim, e comecei imediatamente à procura de um quiosque com gelados. Não vi nenhum, mas vi uma senhora a comer um gelado, e perguntei-lhe onde o tinha comprado. De gelado na mão, sentámo-nos numa nesga de sombra de um auditório vazio, com os sacos aos pés. A minha mãe, pediu-me para lhe abrir o invólucro, que nunca conseguia abrir pelo lado certo, mas quando eu, divertida, me preparava para lhe abrir a embalagem, já ela se desembaraçara dela. O meu gelado era de framboesa (da cor exacta das cadeiras), visto de longe parecia que o escolhera de propósito, e comecei a saboreá-lo voltando-me para ela. Reparei como o seu belo rosto fora readquirindo suavidade pela tarde fora, e como agora nos seus olhos magníficos se reflectia a frescura das árvores. Era tão bom estarmos ali sentadas a fazer uma pausa refrescante antes de iniciarmos o regresso, mas a minha mãe debatia-se com o gelado, demasiado frio para ela, e pediu-me para lhe dar a primeira dentada. Nem pensar nisso, disse-lhe eu, não gosto de gelados com café, olhe mãe, vem ali um senhor, está a vê-lo, peça-lhe que talvez ele não se importe, e desatámos a rir na tarde azul, e o gelado finalmente derreteu. E falámos sobre as fardas dos colégios, porque passou por nós uma criança vinda da escola, acompanhada pelos pais, e quando a minha mãe comprou uma rifa a uma menina dos escuteiros, e lhe disse que não valia a pena dar o telefone porque nunca lhe tinha saído nada, eu lembrei-lhe que uma vez o meu pai ganhou um porco numa rifa, e que o porco, até ser oferecido, tinha ficado preso a um cajueiro nas traseiras da nossa casa, e tinha feito um grande buraco no chão, para se deitar à sombra. E quando vínhamos embora perguntou se eu queria a História Trágico-Marítima, mas eu não queria, e tive a mesma sensação de quando comprei o Pantagruel na Feira do Livro, a certa altura apetece deitar a carga do navio ao mar, e levei-lhe os livros até ao carro.   

2 comentários:

  1. Adorei outra vez, Teresa. Obrigada. A tua mãe é de certeza uma boa companhia.

    E eu era o gelado de café que escolheria (entre esses dois) :-)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Parece-me ser isso um bom presságio...

      Já li os jacarandás de arrasar, amanhã vou lá comentar :)
      Obrigada pela visita, Susana.

      Eliminar