Atalhos de Campo


24.6.15

a minha estante de poesia

é a luz do sol nascente
que visita a minha estante mais bela
em bordeaux lacada 
junto à lacrada janela
que mostra tudo o que sou
e tudo o que sou é nada.
com al-berto(s) abro o dia
continua o daniel faria
e se almoço no inferno com dante
bebo uma mini com rimbeau
enquanto cesariny & leiria
os mários do surreal
olham de soslaio a mestria
de um soneto de quental
e botto tem um desmaio
quando chega o manuel maria
que se diz de u bocage
e olha com troça para o traje
vermelho a ouro bordado 
da sua encadernação
como um tesouro guardado.
subindo em leveza vão
até ao céu como um hino
são nemésio e tolentino
um josé outro vitorino
até que o'neill chega apressado
com tinta da china e pincel
e pinta em papel reciclado 
num ponto bem desenhado 
a essência da exclamação.
a adília lopes na dobra
perde um ponto à reticência
fica com um trema de sobra
e pousa-o na cönceição
que fica com incontinência, 
e passeia com a teresa na horta 
e o chamilly no jardim
quando encontra o holderlin
e com muita paciência
pede o trema à conceição
que fica boa mas torta.
e o manuel com ó
já não tem osgas para a troca
agora só tem mesmo garça
e menino de tapioca
com charca no coração.
e há os amigos ruys
cinaty fala com belo sobre o verde que luz
belo olha para cima
herberto abraça rosa
pina tem saudades da prosa
e cesário que é verde de perto
empresta nobreza à rima
e faz um soneto certo
que oferece a uma linda menina,
como camões a dinamene
do oriente donzela.
enquanto florbela declama 
o amor em perdição
numa tristeza perene
a natália proclama
com a boquilha na mão 
que vai a casa da amália
com david villaret e vinicius
fazer um grande serão
que pode acabar em bulício.
lá mais para o fim do dia 
chega whitman e álvaro de campos
passo sem explicações
diz pessoa 
em estilo de saudação
e eu pego em gedeão
e em daniel filipe
e vou ler a invenção
com arrepios de gripe.
e nas mãos de rilke elejo rosas
e nas mãos de auden um poema
e nas mãos de elliot o tempo
e nas mãos de cavafy o antigo grego 
com hélia a geração do medo
com dickinson fico pequena
com o duro desejo de éluard 
com os conceitos de judice
vou lendo mais devagar
pressinto tamen algures
encontro eugénio no mar 
pelas mãos de uma criança
o mar onde sophia dança
e onde voltarei um dia
para nunca mais voltar.

20 comentários:

  1. Que maravilhosa estante -- diria que o conteúdo dela é a melhor ponte para regressar sempre do mar onde sophia dança.
    (Belíssimo poema).

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    1. (...)
      O melhor da mulher talvez o olhar
      é para mim o mar da mulher
      e à mulher que um só dia encontro na vida
      de passagem um simples momento num sítio qualquer
      talvez a muitos quilómetros do mar
      mas mulher que não mais consigo esquecer
      mesmo imerso na dor ou submerso em cuidados
      a essa mulher qualquer
      eu chamo mulher do mar
      (...)
      Ruy Belo/ Uma forma de me despedir

      os olhos de alda
      não sei como são
      brilhantes e verdes como o mar
      ou dourados e doces
      como pêssego em calda

      talvez que nos olhos de alda
      haja um pássaro do campo
      a voar numa esmeralda
      talvez que a alda mulher
      seja também mulher do mar

      Sim, do mar onde sophia dança.

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  2. E depois de ler
    isto tudo a rimar
    tenho impressão de ter
    acabado de dançar.

    Tão bom, Teresa. Que ritmo!
    Outro beijo.

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    1. Seca-se o livro
      no alto do ulmeiro
      o anacronismo
      produziu o surrealismo
      mas não é só
      uma má tradução
      o livro caiu ao mar
      foi preciso enxugar o livro
      agora o vento abana
      as folhas do ulmeiro
      e as do livro
      (as folhas batem
      umas nas outras)
      e o livro é um fruto
      é um produto
      do ulmeiro
      acham que um verso
      é pouco?
      quem não o aproveita
      é mouco
      Adília Lopes/«seca-se o "liber" no alto do ulmeiro»
      Virgílio, Bucólicas
      Dobra/ Poesia reunida
      Gostei muito, Susana.
      Dançar com as palavras(também) é muito bom.
      Um beijo, e muito obrigada.

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  3. (E o meu coração baila :) tão bom!)

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    1. Querida G.,

      A de amor
      B de belo
      C de casa
      D de dádiva
      E de ética
      F de fonte
      [G. de Mundo]
      H de humildade
      I de (i, ii, iii, iv...) inteligência
      J de justiça
      L de livro
      M de medo
      N de natureza
      O de ombro
      P de paz
      Q de questão
      R de razão
      S de sonho
      T de testemunho
      U de universo
      V de vida
      X de xamã
      Z de zelo

      Um beijo

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  4. Teresa, que maravilha, simplesmente, que maravilha.

    Foi um prazer viajar pela sua estante de poesia :)

    Um beijinho

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    1. Querida Miss Smile,

      «As nuvens hoje parecem
      monges que tomam chá
      em silêncio»

      José Tolentino Mendonça/ Escola do silêncio

      Um beijinho

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  5. Querida Teresa Borges do Canto,
    O prazer de ler foi tal, que reli em voz alta, para melhor saborear.
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. XI.
      «Não sei bem de que cor é a cor do amaranto.
      Mas pelo "amar" e pelo "canto" fica bem esse
      amaranto aí (melhor do que se eu usasse
      perpétua, que é o outro nome que se põe a essa flor)

      Amaranto murmura melhor.»
      (...)
      Manoel de Barros/ Concerto a céu aberto para solos de ave

      Querido Outro Ente,
      Quase me fez acreditar que escrevi um poema.
      Um beijo,
      Teresa

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  6. Vim
    Porque o Xilre sugeriu
    Vim
    Porque te chamas Teresa
    Vim
    Porque te adivinhava a estante

    Agora vou
    e levo
    uma impressão forte, de elevo
    mas que não é de desassossego

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    1. (...)
      «Bons-dias maria teresa até depois
      preciso de tomar o meu pequeno-almoço
      a cerveja era boa mas é bom comer
      como come qualquer homem normal
      e me poupa ao perigo de até pela idade
      me converter subitamente num sentimental»
      Ruy Belo/ Elogio de Maria Teresa

      Que boa sugestão do Xilre, porque gostei muito da visita,
      e gosto tanto do meu nome, que qualquer uma delas(incluindo poesia) é uma boa razão.
      Volta!

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  7. Muito bonito miúda. Eu ainda acredito sabes? Sou muito tola.

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    1. 17.
      «Para que servem poetas se não podem
      Nem delirar, se os textos do delírio
      Serão tomados pelo seu contrário?
      A bela rapariga dos cabelos
      Cor de violeta, Atenas, onde está?
      Quem escavará o monte até aos ossos
      Para que dele ressurjam esses que
      Nos deixaram sozinhos?»
      Hélia Correia/ A terceira miséria

      Olá Uva,
      Eu também acredito; e sempre acreditei em ti.
      Já somos duas tolas...mas penso que há mais, felizmente.
      Adorei a tua visita, miúda. Volta.

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  8. Até ao Pina foi um sorriso. Depois fui ficando triste, muito triste, e muito só.

    Que maravilha, Teresa!
    Abraço

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    1. «Vai pois, poema, procura
      a voz literal
      que desocultamente fala
      sob tanta literatura.

      Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
      porque pela primeira vez estás sozinho.»
      (...)
      Manuel António Pina/ Poesia, saudade da prosa
      Arte Poética

      É verdade, JM, depois de Pina ficámos mais sós.
      Obrigada! Um abraço.

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  9. Boa tarde, Ana

    Muito obrigada. Já sei onde mora.
    Um dia destes faço-lhe uma visita.

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  10. Também aqui cheguei através do Xilre. Que surpresa boa :)

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    1. Sinto que a G.M. é boa pessoa.
      Gostei da surpresa.:)

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