Atalhos de Campo


27.6.15

de tanto ser pássaro,

às sete horas da tarde adormeceu;

-Acorda, teresa, são nove horas!
-são nove horas...da manhã?
-Não, da noite! Os pássaros estão a chamar por ti.

de tanto serem gente, ainda estavam acordados.

manhã turquesa

















Ao luar

Para adorar 
o Sol
Deus pôs a Lua 
à nossa disposição

Paul Claudel/Cent phrases pour éventails(1927)

depois da rega, nas noites quentes de Verão, ela gostava de se enfiar na água morna da piscina,  e de nadar, aproveitando a luz da lua, mas raramente o fazia durante o sol abrasador 

26.6.15

inquietação

É um pássaro perfeito. Observo-o tanto, quanto ele a mim. As asas crescem de dia para dia, o peito é revestido por uma penugem cinzenta clara, a cauda empertiga-se para equilibrar o corpo, e vira, como um leme do ar. Os olhos, iguais a pequenas contas negras, são delineados por uma risca escura, que se abre para dar passagem a uma pincelada de quase amarelo. Fabritius tê-lo-ia pintado com a mesma perícia com que pintou O Pintassilgo. Já dorme menos. Em vez disso, coloca a cabeça de lado para ver melhor o céu, enquanto o outro ainda se esconde por entre as penas do ninho, a dormir, depois de cada refeição. Desde há dois dias que se dedica a fazer exercícios de asas, que batem a uma velocidade louca enquanto fica parado no centro da gaiola, deixada hoje propositadamente lá fora, para que ouvisse os outros pardais a cantar, e os visse a voar. Observar isto é delicioso, como travam e derrapam, como conseguem ficar suspensos no ar sem bater as asas, para a seguir fazerem uma inflexão no voo, e pousarem numa árvore, no beirado, ou partirem para um voo maior. Reparei que consegue saltar da base da gaiola para o primeiro poleiro, e depois para o poleiro mais alto, e, a seguir, pendurar-se nas grades, que ele sente ainda, e só, como uma diversão. Estou inquieta em relação ao futuro destas pequenas aves que salvei. Em breve terei um dilema. Agora que as amo, solto-as, com todos os riscos que isso implica, ou prendo-as numa atitude egoísta de as proteger para não sofrer a sua perda? Não fui eu que andei à procura de pardais caídos do ninho, encontrei-os, ou melhor, foram eles que me encontraram a mim, o que faz toda a diferença. Mas também não gostava de ter um pássaro aprisionado, como o triste passarinho da pintura do mestre de Vermeer.

Partilha




24.6.15

a minha estante de poesia

é a luz do sol nascente
que visita a minha estante mais bela
em bordeaux lacada 
junto à lacrada janela
que mostra tudo o que sou
e tudo o que sou é nada.
com al-berto(s) abro o dia
continua o daniel faria
e se almoço no inferno com dante
bebo uma mini com rimbeau
enquanto cesariny & leiria
os mários do surreal
olham de soslaio a mestria
de um soneto de quental
e botto tem um desmaio
quando chega o manuel maria
que se diz de u bocage
e olha com troça para o traje
vermelho a ouro bordado 
da sua encadernação
como um tesouro guardado.
subindo em leveza vão
até ao céu como um hino
são nemésio e tolentino
um josé outro vitorino
até que o'neill chega apressado
com tinta da china e pincel
e pinta em papel reciclado 
num ponto bem desenhado 
a essência da exclamação.
a adília lopes na dobra
perde um ponto à reticência
fica com um trema de sobra
e pousa-o na cönceição
que fica com incontinência, 
e passeia com a teresa na horta 
e o chamilly no jardim
quando encontra o holderlin
e com muita paciência
pede o trema à conceição
que fica boa mas torta.
e o manuel com ó
já não tem osgas para a troca
agora só tem mesmo garça
e menino de tapioca
com charca no coração.
e há os amigos ruys
cinaty fala com belo sobre o verde que luz
belo olha para cima
herberto abraça rosa
pina tem saudades da prosa
e cesário que é verde de perto
empresta nobreza à rima
e faz um soneto certo
que oferece a uma linda menina,
como camões a dinamene
do oriente donzela.
enquanto florbela declama 
o amor em perdição
numa tristeza perene
a natália proclama
com a boquilha na mão 
que vai a casa da amália
com david villaret e vinicius
fazer um grande serão
que pode acabar em bulício.
lá mais para o fim do dia 
chega whitman e álvaro de campos
passo sem explicações
diz pessoa 
em estilo de saudação
e eu pego em gedeão
e em daniel filipe
e vou ler a invenção
com arrepios de gripe.
e nas mãos de rilke elejo rosas
e nas mãos de auden um poema
e nas mãos de elliot o tempo
e nas mãos de cavafy o antigo grego 
com hélia a geração do medo
com dickinson fico pequena
com o duro desejo de éluard 
com os conceitos de judice
vou lendo mais devagar
pressinto tamen algures
encontro eugénio no mar 
pelas mãos de uma criança
o mar onde sophia dança
e onde voltarei um dia
para nunca mais voltar.

23.6.15

Resposta a Miss Smile












































































Proposta para madrinha aceite.
Um beijinho:)

Un'altra te

No Verão tirávamos-lhe a capota de lona. Ao fim-de-semana metíamo-nos nele cada um com o seu boné, a mochila com as toalhas de praia, uma garrafa de litro e meio de água, um livro. 
A caminho da Costa da Caparica ouvíamos música. Houve a fase do Eros Ramazotti. Ontem recebi uma mensagem tua que dizia que no restaurante onde estavas te tinhas lembrado, enquanto a música tocava. E que nesse tempo feliz ouvíamos a música no máximo. 


dedicado ao meu filho, ao mar da Costa da Caparica, e ao velho Samurai encarnado 

yin & yang



22.6.15

O alpendre

O alpendre da casa é uma enorme gaiola sem portas nem janelas. Passa por ele uma brisa fresca que vem de sul e é para onde o sol olha quando termina o dia. Entre as telhas e as vigas largas de betão há dezenas de ninhos de pardais. Alguns são pardais comuns, outros espanhóis, com as penas das asas pintadas de castanho escuro e o peito cinzento. Por vezes os ninhos caem, outras caem os passarinhos mais aventureiros, antes de saberem voar, mas a maioria das vezes corre bem, e os pais começam a dar-lhes lições de voo a partir do telhado para o estendal da roupa, que está nas traseiras, e depois para a cerca, e depois para a vida. Todo o processo é muito rápido. Fabricam-se revoadas de passarinhos na Primavera, o alpendre compete com a palmeira, que compete com os pinheiros mansos. E pela madrugada, em grande algazarra, aqueles pais voam ainda ensonados dos arranha-céus que fazem de dormitório, e começa a labuta por comida para a família, um não mais terminar de ir e vir, para regurgitar iguarias nas bocas que se abrem ao fundo dos ninhos. Nesta altura do ano é frequente dar de caras com passarinhos moribundos na relva, ou mortos no alpendre, (quando os cães e os gatos não os viram primeiro), ou com ninhos feitos por pais inexperientes, ainda com os ovos intactos, que caíram num dia de vento, ou ainda fazer a assombrosa descoberta de um pequeno e indefeso pardalito, que não nos reconhece como inimigo, e nos abre imediatamente o bico a pedir comida. Foi o que aconteceu há três dias. Quando me preparava para ir regar os vasos do alpendre, ouço um pio próximo da minha cara, e vejo um pardal caído num vaso que estava vazio, como se fosse uma bola de snooker acabada de entrar na baliza. Os pardais muito jovens que consegui resgatar este ano acabaram por morrer. Suponho que alguns tivessem já lesões muito graves, mas foi com eles que ganhei alguma prática, e continuo a tentar salvá-los. O segundo pardal que apanhei nesse dia estava caído na relva, como morto. Era mais novo, quase sem penas, mas mexeu-se quando lhe peguei. Encontrei o ninho no chão e aproveitei-o para os manter mais confortáveis, dentro da mesma gaiola. Alimento-os com uma farinha fina que obtenho no almofariz com a mistura para pintos do dia, e depois faço uma papa com água morna (da consistência das papas de bebé), que lhes vou dando de duas em duas horas, com uma colher de café. É fácil porque estão sempre famintos e engolem tudo voluntariamente, enquanto vou prestando atenção ao papo, para que não fique demasiado cheio. No fim dou-lhes umas gotas de água a beber, e coloco-os no ninho. Passaram setenta e duas horas. A cauda do maior aumentou para o dobro, as asas já cresceram e está mais gordo e interactivo. O mais pequenino pede constantemente comida e aninha-se no outro para dormir. Se me disserem que isto é uma crise de infantilidade, que os pardais são uma praga, que é tempo perdido salvar um pássaro destes, eu escuto com muita atenção, e depois penso, poucas coisas na vida são um desafio como salvar um pardal, e isto pode ser entendido como cada um quiser. 

pardais ao ninho.


21.6.15

apesar da retórica,

prefiro salvar um pardal.

transumância estival



primeiro dia de Verão: de manhã cedo passa por mim um pato em voo solitário 
paralelo à planície, rumo a levante; até me arderem os olhos. 

Verão

Em silêncio o rochedo
vê chegar e partir
as estações

José Tolentino Mendonça/Escola do Silêncio 

19.6.15

Ao Expresso, com amor

O Expresso é o meu jornal há muitos anos. Acontece que aqui me chega atrasado, e a notícia que acabei de ler na página 101 da E de Sábado passado, com o título Aqui há gato..., me parece de outro jornal. Vem ela ao lado da coluna assinada pelo psiquiatra José Gameiro, suponho que por relacionar os gatos com doenças graves dos donos, tais como bipolaridade e esquizofrenia. Ocorreu-me de imediato a ironia de que isso se deveria a uma fase de divisão do núcleo do parasita em questão, a esquizogonia, pela qual se origina o esquizonte. A forma leviana, para não dizer alarmista, como o assunto é tratado, a falta de bases científicas na condução do tema, a especulação e a ausência de assinatura no fim, deixam-me perplexa. Está em causa o velho Toxoplasma gondii, um parasita intestinal que é eliminado pelas fezes dos gatos, há muito amplamente estudado pelos efeitos teratogénicos, cegueira e morte fetal nos fetos humanos, ou por transtornos neurológicos graves e irreversíveis. Quando engravidei há trinta e três anos já era usual fazer-se o teste da toxoplasmose, pelas mesmas razões que é hoje. Acontece que eu tinha um título muito elevado, o que podia ser confundido como tendo a doença(a grande suspeita era ter na altura dois gatos em casa). Três semanas depois o título estabilizara, e a conclusão tirada pelos médicos foi que eu era altamente imune à toxoplasmose,( exactamente por ter tido sempre contacto com gatos), e o meu filho nasceu saudável. No entanto, em minha opinião, o maior perigo não vem de manusear as caixas de litter com fezes de gatos, desde que haja o mínimo de bom senso e higiene ao fazê-lo, mas o de comer carne contaminada de porco ou de herbívoros, e saladas mal lavadas. Desconfio que nos Estados Unidos da América do Norte, os referidos "60 milhões de portadores sãos de Toxoplasma goondi", se devem com certeza mais ao consumo de carne mal passada e de saladas, do que à contaminação pelo gato que têm em casa, se tiverem. Durante a minha vida profissional, foram muito poucos os casos diagnosticados como fatais em gatos, e nos exames sorológicos que lhes foram feitos a pedido de donas grávidas, o resultado foi sempre negativo. Parece-me também importante esclarecer o seguinte: a contaminação dos gatos faz-se pela ingestão de pássaros e roedores parasitados, portanto uma forma de limitar a doença nos gatos e a sua eventual transmissão aos humanos, é impedir que cacem, fornecendo-lhes rações, o que é o mais usual nas cidades. Para concluir, se há de facto ligação entre psicoses, suicídios e esquizofrenia nos humanos, relacionada com quistos de Toxoplama gondii no cérebro, o assunto deve ser tratado de forma mais científica e séria, e não me parece que concluir um artigo com o seguinte e banal parágrafo: No entanto, não é caso para alarme. Os donos devem apenas reforçar os cuidados de higiene, mudando frequentemente a areia e lavando sempre as mãos depois de a manusear,(um conselho do século passado), venha a contribuir para melhorar alguma coisa.  

clave de sol


18.6.15

As estórias de Heródoto


Sento-me à mesa de trabalho. Inclino a cabeça para a memória 
dos livros que li e amei.
Com um gesto de ave pouso a mão sobre o papel. E no interior
da sombra da mão, começo a escrever: era uma vez...
Al Berto/ Mapa-Múndi
















Post inteiramente dedicado a Xilre.
Não me esqueço que foi o meu primeiro "seguidor".
Um abraço, (posso dizer comovido?)
Teresa.

17.6.15

Fisga

Nada como manejar com destreza a palavra fisga, 
para agarrar 
da elasticidade, o tempo.


























Post inteiramente dedicado ao JM.
Por todas as boas leituras e imagens.
Um abraço. 
Teresa

:))



Post inteiramente dedicado a Miss Smile.

Querida Miss Smile, tem noção do que já aprendi consigo?
Um beijinho.
Obrigada, Teresa.


Talento

«Aquele que me habita, e escreve, vive algures numa espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar dela. Sabe, apenas, que por instantes uma incandescência terrível cresce dentro de si, ergue-se, nomeia as coisas do mundo, apaga sombras, revela os ossos muito antigos das palavras...de resto, mais nada. É no escuro das casas que se debruça para o papel e escreve, como se fosse o último homem a fazê-lo. O deserto alastra em seu redor. Está só, tudo esqueceu. A pouco e pouco o seu olhar reinventa um rosto, devassa um coração - a noite põe-se a pulsar, sangra - e a precária escrita ensina-lhe como alcançar o definitivo silêncio.»
Al Berto/ Que tudo se apague




                                            
Quem me visita diz coisas fantásticas a meu respeito. Nunca confirmo nem desminto. Limito-me a ouvir e calo-me. Porque há coisas que devem correr com o tempo e, mais tarde ou mais cedo, nele se apagam. É claro que também há coisas guardadas na minha memória de papel. Mas essas, já não tenho a certeza de que alguém as tenha dito ou as tenha, de facto, ouvido. Por vezes ponho-me a sorrir, mas ninguém consegue ver que sorrio, porque o retrato que me esconde - como eu - está morto e desfocado.
E a luz é o nosso túmulo.
Al Berto/ O Esconderijo do Homem Triste


Post inteiramente dedicado à G.,

cuja escrita me lembra, tanto, Al Berto, voz que ecoa por estas paredes, e se escapa para o laranjal anoitecido em pequeníssimas flores brancas, identificadas pelo perfume. 

Um beijo.
Teresa

Aula de dança



























Post inteiramente dedicado à Susana Rodrigues.
Um beijo,
Teresa.

 
                                                                                      

Reunião de família


























Post inteiramente dedicado ao Outro Ente.
Um abraço,
Teresa.



16.6.15

Empatia

A Benevolência parece-se com uma disposição amigável,
mas não será certamente amizade. Pois, pode haver 
benevolência relativamente a desconhecidos e ela pode
passar-nos despercebida mesmo sendo nós o seu objecto.
Aristóteles/Ética a Nicómaco


Por estes dias sinto-me presa à empatia. A empatia pode ser silenciosa, aprecio-te mas não me comprometo a dizê-lo. Assim sinto-me livre. Inventei então uma palavra para isso, empatar. Quando escrevo sorriso :), querido/a, beijinhos, abraços, sinto que não é bem isso, ainda, mas acredito que isso vai vindo com o tempo, até se encaixar no lugar certo. Confio muito no tempo, o tempo dilatou-me o olhar e a alma, peneirou-me o amor por finas camadas, em mil novecentos e...lembro-me bem das camadas de amor, de amizade, de paixão, datas, dias, segundos. Até que descobri um sentimento novo. Comecei a sentir empatia. O amor está no lugar certo, em pequenas ilhas do passado, engrandecido pela saudade, consumado pela partilha, filtrado pela distância, esgotado pela dádiva. E quando alguém, que eu mal conheço, me sorri, fico agradecida e compreendo, perco o medo e também sorrio, se me chamam querida, vou buscar um querida um bocado amarrotado ao fundo da gaveta, dou-lhe uma sacudidela e retribuo, se me abraçam deixo-me ir, porque acredito que só quem nos quer bem pode abraçar-nos, e se me mandam beijinhos, é porque também sentem empatia, como eu, que para empatar, retribuo. Empatar é bom.    

Gran Vía


há pelo menos uma mulher a dormir na Via Láctea, agora tenho a certeza


- Marc Chagall -

15.6.15

Passagem para a noite (5)

Não consigo determinar o momento exacto em que os grilos começam a  responder ao coaxar das rãs, as vozes ecoam no ar como que vindas do chão, o azul se separa nitidamente do rosa no horizonte, e os pássaros finalmente adormecem; não consigo determinar o momento exacto em que desaparece na noite o último branco. 

memória. curta # 7

Ele contava-me que eram as primeiras, punham-se em fila, passando mesmo à frente dos colegas, prontas a empunhar o canivete para matar as ovelhas. Um homem chegava de manhã com uma carrinha de caixa aberta, cheia de animais para sacrificar para as aulas de anatomia. Os animais vinham em muito má condição física, magros e doentes, ou eram velhos em fim de vida reprodutiva. Era essencial praticar nos cadáveres para conseguir fazer a cadeira. Por isso havia inscrições para animais extra, comprados pelos alunos, para dissecarem para além das aulas práticas, antes do exame final. Inscrevi-me num desses grupos, e, a certa altura, vieram dizer que o professor obrigava cada um a matar o seu animal. Era a brincar, claro, mas naqueles dias, tal como hoje, preferiria mudar de curso a ter que o fazer. No entanto, reconheci-as pela vida fora, a essas pessoas, algumas eram mulheres com especial prazer em matar e ver morrer, prepotentes, arrogantes, sarcásticas, gélidas. Lembro-me que uma vez, durante um jantar, alguém se lembrou de dizer que atiçava os cães contra os gatos, enquanto assistia ao espectáculo sentada na varanda das traseiras, e a rir, rematou que quando as gatas estavam grávidas era quando lhe dava mais gozo assistir. Era mãe de sete filhos.  

Valsa triste

Duas Borboletas saíram ao Meio-Dia-
E por sobre uma Herdade valsaram-
Depois subiram até ao Firmamento
E descansaram num feixe de Luz-
(...)
Emily Dickinson