Atalhos de Campo


31.5.15

velas


























Era sempre surpreendente a chegada ao rio. No estuário a promessa do mar era da largura do abraço entre as duas águas, sulcadas pelo aviso pachorrento e aborrecido dos grandes navios, tatuados pela nostalgia de outros portos; a relatividade de tamanhos ali tão perto, eram barcos de cruzeiro com cascos como paredes de betão, sustentando hotéis flutuantes, chegando e partindo pela mão de rebocadores minúsculos, com os passageiros maravilhados no deck, (distraídos com a perspectiva a fazer temer a colisão, que nunca acontecia); os cargueiros entrando no porto eram comboios do mar, chegando finalmente à última estação; era a dança colorida das velas nas regatas; eram pequenos mas rápidos barcos a motor em passeio, cruzando-se com magníficos iates deslizando tranquilamente até ao seu destino, como cisnes brancos mirando o seu reflexo na superfície da água; era a canoa veloz levada pelos braços síncronos dos remadores; era um grande veleiro chegando à outra margem, envolta em bruma. Sentada diante de um sumo de papaia, um croissant e um café duplo, com a leitura do Expresso mil vezes interrompida por aquela festa a entrar pelos olhos, via surgir ao longe o casco azul escuro do Xekmatt. Começava a distinguir a tripulação e finalmente quando te via, esperava que passasses ali mesmo à frente, para te dizer adeus. E nesses dias, havia no ar um cheiro especial a maresia. 

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