Atalhos de Campo


11.5.15

Tratado de Tordesilhas



Deitada ao longo do muro esperava pelo avião de regresso. Só havia o céu e a noite. A imensa abóbada estrelada aguardava-a com a mesma indiferença do mar que ficava. A sua toada monótona de marés desde o início do mundo, começara por turvar-se pelo canto dos olhos e invadira-a um soluço gigante, uma onda interior que lhe morria no peito, sem rebentar, contida, mortal. Morria-lhe aquele mar mergulhado nas ilhas do corpo, nas ondas largas do cabelo, na espuma do sorriso, morriam as rosas de areia na pele tisnada pelo sol, murchavam-lhe flores de Sal por entre os dedos. Ficaria ali para sempre esse corpo que lhe morria agora, sepultado naquele chão que o muro dividia ao meio, e que passara a ser seu. Tinha ficado nas rochas negras, na ermida isolada na ilha da Boavista, nos peixes que voavam como olhos do mar, na vadiagem pelos bares, swingando por entre as cordas dos cavaquinhos e rabecas, bebendo cortados, no mercado cheirando a gente de Espargos, na casa feita com as mesmas tábuas do pontão, erguida entre o céu e o mar e pintada com a cor do sangue do espadarte, que brilhara ao pôr-do-sol num barco de pescadores; tinha ficado nas mornas e nas coladeiras, dançadas de pés descalços na praia. O mundo dividira-se em dois, aquele que ficava, e o que a esperava, a rua íngreme de estendais ao sol, o espreguiçar sonolento dos gatos nas calçadas, as sardinheiras às janelas, e aquele mesmo fado nas asas das pombas, voando entre as ilhas de nuvens com o Tejo ao fundo. Passaram tantos anos, e agora me lembro que ela me contou que só voltara uma vez a Cabo Verde, um tanto inesperadamente, quando, num dia de aniversário, o filho a surpreendeu com um almoço num sítio único, em que se comia cachupa e se dançava por entre mesas corridas, abandonando os pratos ao som da música ao vivo, que desaguava na Avenida da Liberdade daquela quinta-feira abafada de Outono. O filho dissera-lhe de manhã que nunca tinha dançado com ela. Foi no dia em que fez quarenta anos. Ficara com a certeza, que, também a ele, nascera uma roseira no peito. 

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