Atalhos de Campo


4.5.15

rosas e catacuzes

Rosas dão-se bem no Alentejo, são delgadas e secas, defendem-se como gatos, fazem vénias ao vento norte, rosas são do sul, sacodem geadas no Inverno, vivem em chão de terra batida, crestam ao abandono do estio, de rosto vincado e caule enxertado em corpo velho, coladas a casas arruinadas de taipa, crescem nas salas, nos quartos sem telhado, saltam pelas janelas e fogem, florescem ainda, trepam ainda pelos muros e deitam-se ao sol, enroscam-se nas noras, apontam ao céu as suas lanças de guardiãs das estrelas, pela manhã deixam tombar as cabeças coloridas e perfumadas, e um dia, soltam as pétalas todas, exibindo frutos como maçãs miniatura, pequenos quistos de longínquos paraísos de Verão. Apostemos nas rosas, num jardim de rosas antigas, trarão consigo os catacuzes purificadores, que cresciam entre elas lançando as suas raízes profundas de dentes infiltrados nas gengivas da terra, crescerão entre as rosas, à sua sombra, em jeito de coroas verdes de tenros espinafres, e nós saberemos identificá-los e prepará-los, como faziam as mulheres-rosa-brava, canina, gallica, que habitavam as casas de taipa e chão de terra batida, mulheres de olhos de orvalho, e cheiro de água, e pelas chaminés abandonadas, onde agora só moram andorinhas, voltará a sair o perfume das rosas e da sopa de feijão, misturada com alabaças.    

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