Atalhos de Campo


13.5.15

natureza morta com rosa e copo

(...)
Uma mulher pôs num copo uma rosa amarela; o homem murmura os versos inevitáveis que ele próprio, para falar com franqueza, já enfastiam um pouco:

          
           Púrpura do jardim, pompa do prado,
           Gema de Primavera, olho de Abril...


Então ocorreu a revelação. Marino viu a rosa, como Adão a pôde ver no Paraíso, e sentiu que ela estava na sua eternidade e não nas suas palavras e que podemos mencionar ou aludir mas não expressar e que os altos e soberbos volumes que formavam num ângulo da sala uma penumbra de ouro não eram(como a sua vaidade sonhou)um espelho do mundo, mas uma coisa mais agregada ao mundo.
Esta iluminação alcançou Marino na véspera da sua morte, e Homero e Dante porventura também a alcançaram.

Jorge Luís Borges


                      
Há dias assim: eu hoje mencionei uma rosa.

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