Atalhos de Campo


12.5.15

João

O João faz hoje anos. Disse-me que amanhã tem que apanhar um avião de Faro para o Porto, vai estar numa formação. Adora motores, o João. E motos. E velocidade. A sua voz parece-me triste. Pergunto-lhe se vai a algum sítio comemorar, mas não vai, tem que se levantar às quatro da manhã para ir apanhar o avião. Vive com a família, e com os motores, peças minúsculas que manuseia com eficiência de relojoeiro. Aplica-se nesse silêncio concentrado desde que nasceu, talvez não tivesse ainda dois anos quando desaparafusou um bidé da casa de banho do camarote do barco onde viajávamos. Visita-me uma vez por ano. Chega de moto, equipado de cabedal negro dos pés à cabeça. Falamos mais agora, por vezes abre-se comigo sobre a vida, enquanto almoçamos no alpendre. Vou percebendo que não o conheço, que, enquanto me encerrava no quarto a ler e a estudar, ele fazia com os amigos protótipos motorizados, e punha várias vezes a vida em risco, entre as  páginas tranquilas do meu livro. Velejava bem, até se apaixonar perdidamente pelos motores. Quero apanhar esse tempo, apercebo-me dele como se visse um filme mudo, em que o João é agora o narrador, quero muito acrescentá-lo à minha parte, para que o passado consiga fazer mais sentido. A cada gesto lhe adivinho o meu pai, na ironia também, calado vai desatarraxando o tempo com perícia, e depois liberta-o numa frase mordaz, numa gargalhada, que acaba quase sempre a morrer num trejeito triste. Já teve um desastre enorme, o João. Quando fui vê-lo estava irreconhecível, todo partido, ligado como uma múmia. O amigo, a quem deixara conduzir a moto, morrera no acidente. Temi que tivesse sido ele. Há uma fotografia tirada à porta do hospital com toda a família, ele ainda numa cadeira de rodas. Da última vez que cá veio pedi-lhe para irmos dar um passeio de moto. Afinal nem tudo estava perdido. Numa manhã bem cedo, volta a equipar-se e faz a viagem de regresso, palmilhando centenas de quilómetros, corpo e alma cosidos com o seu bólide, luminoso, a voar sobre o asfalto. Talvez só pare quando o conta-quilómetros virar num número com muitos zeros, para tirar uma fotografia.   

2 comentários:

  1. Gostei! Quero ver esta escrita num livro, porventura com muitos quilómetros de páginas lidas. Bjs Saudades

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  2. Obrigada, vamos juntando retalhos, depois é só coser...
    Beijinhos

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