Atalhos de Campo


24.5.15

enquanto os fazia adormecer

Quando era miúda lembro-me de o Festival da Canção ser um acontecimento nacional. Depois do jantar a família reunia-se toda em frente do aparelho de televisão a preto e branco, os mais novos sentados em almofadas pelo chão, para não tirarem a vista aos mais velhos, sentados atrás. Eram noites divertidas, com licença para ficar acordado a torcer pela música favorita, em enorme excitação durante a pontuação por distritos, um acontecimento só comparável com um dia de eleições nos tempos actuais (nessa altura não era costume haver eleições). As expectativas eram sempre enormes, e quando finalmente íamos ao Festival da Eurovisão já todo o país trauteava a dificílima canção portuguesa. E sucedia-se o fiasco, um ano após o outro na cauda da classificação(salvo raras excepções), com os magros pontos da Espanha por solidariedade Ibérica, e pouco mais. As orquestrações eram tão exuberantes que ofuscavam a voz dos cantores, era tudo muito formal e sem alegria, os coros, por vezes bastante dispensáveis, desequilibravam ainda mais o conjunto já sem graça, quando comparado com o ritmo de algumas das canções do resto da Europa, principalmente do Reino Unido, Irlanda, e Espanha, que ficavam imediatamente no ouvido. Hoje, por causa dos sessenta anos do Festival da Eurovisão, lembrei-me de ir à procura do Sérgio Borges(por quem tive uma paixoneta), e que venceu em 1970. Primeiro fui ouvir a música, que ainda sei de cor, e depois tentei saber o que se teria passado com a carreira dele, que era bastante mais velho do que eu pensava, e que para meu espanto já morreu, aos 68 anos. Imaginava-o grisalho e avô de uma dezena de netos, a cantar-lhes, com aquela voz terna, sobre um rio, um cais, um Norte, enquanto os fazia adormecer. E fiquei com pena.       

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